Amo-te tanto como se fosse a primeira.
E como serás a última, amo-te tanto!
Um tanto primeiro e infindo,
Outro tanto constante e último!
Mas sempre tanto e muito...
sábado, 10 de outubro de 2009
terça-feira, 29 de setembro de 2009
INÍCIO
Não conheci ninguém que se lembrasse do início, por isso somente posso tentar traduzir em sentimentos, não fatos. Mas até mesmo as sensações a que me remetem também não são claras.
Inicialmente dois sentimentos me povoavam, distintos e talvez complementares. De um lado um grande vazio, a sensação de um lento caminhar para o nada, sem objetivo; nunca procurando, sempre na espera de algo desconhecido. Sentia-me amarrada, fadada ao abismo que se repetia a cada lua.
Do lado oposto, sem preocupar-me com as paisagens, ansiando sempre o fim, sentia-me, na gana de chegar, desintegrado, perdendo partes de mim, perdendo as forças e morrendo cego, sozinho, a cada final de dia.
Em comum, desses sentimentos que não se comunicavam, havia somente um ponto. O conhecido desejo de se encontrar bem como ao desconhecido. O impulso platônico para a comunhão ideada.
Quando se quer, o tempo se repete sem caminhar, nos envolvendo e nos sufocando em nossos medos.
Mas de repente um elo parece se romper e toda a pesada corrente se solta deixando-nos ao prazer do vento. Não há mais a espera, não há mais o fim. Os anseios, os medos, o fado, a cegueira, tudo se concentra na delícia do encontro, no pasmo da luz, na simplicidade do estar.
O triste fim não ocorreu, e o vazio se tornou pleno.
União, Unidade!
Como descrever? Uma explosão de cores e sentidos? Uma implosão fazendo-me voltar sobre mim, reflexo da natureza? Um infindo multiplicar-se de si mesmo, caleidoscópio de vidas e sentidos.
Nesse novo fervilhar orgânico, um conhecer-se a cada instante, um mundo formando-se, uma organização criando-se por si. Causa de si mesma!
Um desenvolver-se alucinante e frenético, fervilhar febril que aos poucos se vai amainando pelas dimensões já conquistadas, que na proporção de seu tamanho já traz a calma e a paz do caminhar objetivo, mas ainda quente.
Não sei ao que me remeter... ao mito paradisíaco? Quando não se tem desejos? Ou aonde todo anseio é satisfeito? Ao eterno abraço... ao infindável envolvimento, amparo, guarida e cuidado...
Amor! Sim... Mera satisfação é incompleta, fraca ante ao que sentia... Nunca se repetiu, nunca mais senti nada igual, todos os outros raros momentos de amor que senti foram fugazes lapsos, fagulhas de felicidade, ou melhor, de esperança de felicidade. Aquilo que se busca após, acredito, é somente uma tentativa inútil e inconsciente de se voltar àquele estado em que se confunde e magicamente se somam os instantes imediatamente antes e imediatamente depois ao orgasmo: convulsão e a inércia, juntas, ao mesmo tempo... mas ainda assim é pouco para traduzir. Talvez se somássemos a isso a rara sensação de completude, da estagnação do tempo, do fugir-se de si, do flutuar... do desprendimento de toda forma física acrescida da sensação de tudo, em si... conter!
A aparente calmaria. A delícia do navegar, do contemplar. O início do sentir, do se-sentir! Ser!
Até então, tinha a sensação do uno, de tudo conter, de ser o todo, mas algo novo senti e me assustei: o outro! Mas o quê? O que era aquilo? Existia algo além de mim, mas não identificava. Será que o que me acolhia era diferente de mim, da minha sensação de paz? Afinal, sentia um mover-se contínuo e o próprio sentir parecia distinguir-se, especificar-se e novas formas de perceber multiplicavam-se em mim... o sentir como um todo não aumentara, mas parecia desintegrar-se, dividir-se em parte menores que se complementavam num novo entendimento...
Tive, pela primeira vez, a certeza do outro. O tocar! Sujeito e objeto: nova forma de conhecer! Enfim algo se diferenciava de mim. O susto, o desconhecido, medo e prazer. Novidade... e o descobrir-se contínuo mudava o foco... A inversão copernicana... Existia vida independente naquela sensação de envolvimento e colo, era o outro que me ofertava prazer, paz.
Sabores, estímulos, a novidade contínua. Vermelho... incômodo e excitação, delícia e medo...meu olhar. Vozes... de início extremamente baixas, sussurrantes. Segredos? Aos poucos quebravam o contínuo embalar, eterno, pulsante. Antes era só um sentir interno, como se integrasse ao todo, a mim: um fundo musical para a lenta expansão desse universo... Logo depois, ainda silencioso e ainda mais interno, um pulsar mais acelerado, como se com sede, como que jovem, dando cadência àquele fervilhar de vida. Agora já os ouvia, distintos, um a me embalar, outro a me manter... era uma dança constante, linda, na qual toda suavidade se fazia absorver, penetrar em cada célula, ser cada célula.
Essa cadência, então, começara a ser entrecortada por outros sons... Vozes! Conversas nas quais uma voz distinta estava sempre presente, a mais doce, a mais familiar e acolhedora. As vezes ouvia uma voz mais grave, carinhosa e nesse instante sentia que aquele permanente abraço se fazia mais forte, mais envolvente... Queria participar, queria compartilhar o que sentia e ouvia, mas nenhum som saía de mim, então me comunicava com a única coisa que possuía desde sempre, interagia com o mover-se. Não era consciente, claro, era uma expressão: sentia e precisava catexiar, e como vinha, ia! Também queria abraçar...
A percepção do outro só aumentava, diminuindo aquele ensimesmamento... Sensação de abrir os olhos... Luz! A quebra da unidade, da barreira entre mundos apartados. Encontro sem fusão! Intimidade...
Não sei se por essa nova sensação, se por essa crescente curiosidade, necessidade de contato, mas o fato é que algo que hoje traduzo como impaciência se apoderou de mim... Sentia-me sufocar, não cabia mais em mim, um empertigar, vontade de me expulsar, assim como a todas as minhas ânsias, agora também crescentes...
Algo como a curiosidade, uma força corrosiva vindo de dentro, o não mais bastar-se. Tudo era grande demais. Era isso, explosão! Meu fim...
Depois de todas as minhas experiências, só restava meu fim, escoar-me de mim. Dissolver-me melancolicamente ou desintegrar-me numa explosão. Não sei, sei que precisava rasgar.
E acho que foi assim... uma ansiedade incontrolável, crescente, clímax... e quando pensava vir o silêncio absoluto... de repente os sons mudam, outras vozes, outras luzes, ofuscantes, cegantes...
Frio.
Senti-me arrancada. Nada mais gélido, branco, inóspito. Desespero! Desespero! Porque a morte não me vinha suave? Arrastada, impotente, e o frio me penetrava, enrijecia, me trincava o corpo... e quando sabia não mais poder resistir, ouvi ao fundo uma voz doce, suave, acolhedora... fui novamente envolvida, abraçada e o quente colo novamente me abraçava.
Aquela voz chamava meu nome, fui colocada em seu peito. Não estava morta. Era Primavera. Era 29 de Setembro de 2009. Nesse dia eu nasci!
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
CONFISSÃO
Estava em minha sala quando ouvi na recepção uma voz doce que me fez suspender a respiração. A caneta erguida da folha começou a tatear o papel lentamente enquanto abaixava a cabeça, não ouvia mais nenhuma voz, o ambiente que ainda trazia o frio da manhã começou lentamente a tornar-se acolhedor. Aquela sóbria sala de escritório amenizava a solidão e se isolava em algum espaço deserto.
De repente, aquilo que me acolhia voltou a me incomodar, e numa angústia conhecida meu corpo ameaçou encolher: estava só. A imagem de meu quarto de infância formou-se em minha mente junto com o ruído incômodo de visitas na sala de estar.
Olhei para o corredor que findava a recepção e vi uma imagem sem rosto, enevoada do calor feminino, vindo em minha direção. A parte mais nítida era os quadris, e isso não me incomodava. De tamanho desproporcional, só possível em sonho, trazia em uma das mãos algo cilíndrico enrolado num pano antigo.
A imagem se desfez quando ouvi despedidas na recepção, minha janela mirava a saída e entre as persianas observei as costas e os cabelos louros de duas altas mulheres que caminhavam indiferentes, agora já na rua.
Nesse dia voltei mais cedo pra casa, minha mulher estava viajando devido a um congresso. Nada na tevê, palavras cruzadas na cama me fariam dormir. Naqueles instantes últimos antes do sono, clareou uma poesia sobre a casa paterna.
Poesia? Quando adolescente escrevi um desabafo numa agenda, mas... perdi a agenda e ganhei amigos. Não era exatamente popular, mas todos na escola sabiam meu nome, inclusive professores, e eu não sabia de todos. Na rua eu era chamado pra resolver qualquer problema entre os garotos, e resolvia; se dois estavam querendo brigar eu não deixava, se insistissem, eu batia nos dois.
Acreditei que tendo muitos amigos, ou algo parecido, ficamos muito ocupados e preocupados. Talvez por isso eu era conhecido também pela minha agressividade e não tinha tempo de gostar de nenhuma menina, mas gostava de ser gostado.
O primeiro mal-estar foi quando tinha dezessete anos. Voltando da escola, ainda concentrado nas aulas de geometria analítica e de ondulatória, às quais me dedicava apesar de ter claro minha escolha para o curso de Direito, quando deixei cair “O Príncipe” anotado por Napoleão Bonaparte e por Christina da Suécia que havia emprestado da biblioteca. Quando o livro se abriu em meio à rua, uma folha dobrada voou para longe, recolhi o livro e continuei andando deixando aquele papel pra trás, porém, ainda nos primeiros passos, o vento fez com que aquele pedaço de página já empardecido viesse parar próximo aos meus pés, apanhei e o guardei no livro novamente.
Já em minha cama, coloquei o livro sobre o peito e rezei o habitual cacoete: “abre-se um livro, abre-se uma vida”. Como o costume que tenho ainda hoje, antes de ler um livro pela primeira vez, passo os olhos pelas páginas de trás pra frente. Fazendo isso, aquela folha caiu novamente do livro, quase em meu rosto.
Parecia um trecho de uma carta piegas, porém o que me intrigou foi a letra, era minha.
(...)
Absurdo! Como poderia pensar que era minha letra, há tantas letras parecidas. Isso me confortou no momento, porém quando lia esse trecho, parecia sentir exatamente as emoções que tentavam exprimir. Será que só de ler poderia imaginar algo que não vivi. Aquele sentimento começou a me perseguir desde então – era o mal estar.
Quando acordei, fiquei cerca de meia hora sentado na cama procurando no que pensar. Aquilo estava fugindo do meu controle – casa paterna, poesia – estava confuso. Levantei-me citando Sheakespeare: “há algo de podre no reino da Dinamarca”.
Os livros que apareciam em minha estante desde o tempo da faculdade, tais como Nietzsche, Spinoza e Shopenhauer, todos estranhos e intocáveis, por um instante pareceram familiar e a dúvida de ser esse mundo mesmo real soou-me plausível.
Como advogado, estava familiarizado com algumas expressões latinas, porém a que me veio à mente como uma marretada não fazia a menor idéia de sua origem: quod quid erat esse.
Toda a lógica das argumentações diárias com as quais convivo perderam força, e ficou clara a contradição interna. Minhas pernas bambearam e não me preocupei em ligar para o escritório avisando que não ia trabalhar.
Comecei a revirar meus arquivos atrás de um trabalho que um dia encontrei em minha escrivaninha cujo título trazia algo como ‘Ambivalência Emocional’. Não encontrava, teria jogado fora mais uma das coisas que surgiam inexplicavelmente?
Confusão, livros estranhos tornando-se familiares, a imagem do quente quadril vindo em minha direção toda vez que fechava os olhos, frases sem sentidos saltando em minha cabeça: quero a morte da amada testemunha. A vida que desforra pede. Sinto o baque do chão.
Com um sorriso materno, aquela imagem desvela o antigo pano e estende uma mamadeira, uma lágrima escorre por meu rosto. Uma bicicleta cujo verde da pintura está descascado trás uma criança descalça. Um Flamboyam conta as dores de um adolescente. Um córrego arrasta a areia de uma saudade não visitada. O vento esvoaça os longos cabelos masculinos enquanto um grupo de amigos discute filosofia embaixo de árvores.
Quem me criou a vergonha do público? Quem me fez abaixar a cabeça aos olhos sedutores? Quem me fez verter versos com lágrimas? Quem me fez esquecer tudo isso?
Vejo que não deixei pra trás, mas trago escuro outro sangue que minhas veias aos poucos se mancham. Procuro poesias que possam me explicar, mas vejo um lapso, um fosso entre a criança e a dor que agora sinto. Eis o contraditório!
Pelo medo de confessar já confesso o medo de me reconhecer. Talvez um dia eu me confunda e acabe ajuizando uma poesia.
De repente, aquilo que me acolhia voltou a me incomodar, e numa angústia conhecida meu corpo ameaçou encolher: estava só. A imagem de meu quarto de infância formou-se em minha mente junto com o ruído incômodo de visitas na sala de estar.
Olhei para o corredor que findava a recepção e vi uma imagem sem rosto, enevoada do calor feminino, vindo em minha direção. A parte mais nítida era os quadris, e isso não me incomodava. De tamanho desproporcional, só possível em sonho, trazia em uma das mãos algo cilíndrico enrolado num pano antigo.
A imagem se desfez quando ouvi despedidas na recepção, minha janela mirava a saída e entre as persianas observei as costas e os cabelos louros de duas altas mulheres que caminhavam indiferentes, agora já na rua.
Nesse dia voltei mais cedo pra casa, minha mulher estava viajando devido a um congresso. Nada na tevê, palavras cruzadas na cama me fariam dormir. Naqueles instantes últimos antes do sono, clareou uma poesia sobre a casa paterna.
Poesia? Quando adolescente escrevi um desabafo numa agenda, mas... perdi a agenda e ganhei amigos. Não era exatamente popular, mas todos na escola sabiam meu nome, inclusive professores, e eu não sabia de todos. Na rua eu era chamado pra resolver qualquer problema entre os garotos, e resolvia; se dois estavam querendo brigar eu não deixava, se insistissem, eu batia nos dois.
Acreditei que tendo muitos amigos, ou algo parecido, ficamos muito ocupados e preocupados. Talvez por isso eu era conhecido também pela minha agressividade e não tinha tempo de gostar de nenhuma menina, mas gostava de ser gostado.
O primeiro mal-estar foi quando tinha dezessete anos. Voltando da escola, ainda concentrado nas aulas de geometria analítica e de ondulatória, às quais me dedicava apesar de ter claro minha escolha para o curso de Direito, quando deixei cair “O Príncipe” anotado por Napoleão Bonaparte e por Christina da Suécia que havia emprestado da biblioteca. Quando o livro se abriu em meio à rua, uma folha dobrada voou para longe, recolhi o livro e continuei andando deixando aquele papel pra trás, porém, ainda nos primeiros passos, o vento fez com que aquele pedaço de página já empardecido viesse parar próximo aos meus pés, apanhei e o guardei no livro novamente.
Já em minha cama, coloquei o livro sobre o peito e rezei o habitual cacoete: “abre-se um livro, abre-se uma vida”. Como o costume que tenho ainda hoje, antes de ler um livro pela primeira vez, passo os olhos pelas páginas de trás pra frente. Fazendo isso, aquela folha caiu novamente do livro, quase em meu rosto.
Parecia um trecho de uma carta piegas, porém o que me intrigou foi a letra, era minha.
(...)
Absurdo! Como poderia pensar que era minha letra, há tantas letras parecidas. Isso me confortou no momento, porém quando lia esse trecho, parecia sentir exatamente as emoções que tentavam exprimir. Será que só de ler poderia imaginar algo que não vivi. Aquele sentimento começou a me perseguir desde então – era o mal estar.
Quando acordei, fiquei cerca de meia hora sentado na cama procurando no que pensar. Aquilo estava fugindo do meu controle – casa paterna, poesia – estava confuso. Levantei-me citando Sheakespeare: “há algo de podre no reino da Dinamarca”.
Os livros que apareciam em minha estante desde o tempo da faculdade, tais como Nietzsche, Spinoza e Shopenhauer, todos estranhos e intocáveis, por um instante pareceram familiar e a dúvida de ser esse mundo mesmo real soou-me plausível.
Como advogado, estava familiarizado com algumas expressões latinas, porém a que me veio à mente como uma marretada não fazia a menor idéia de sua origem: quod quid erat esse.
Toda a lógica das argumentações diárias com as quais convivo perderam força, e ficou clara a contradição interna. Minhas pernas bambearam e não me preocupei em ligar para o escritório avisando que não ia trabalhar.
Comecei a revirar meus arquivos atrás de um trabalho que um dia encontrei em minha escrivaninha cujo título trazia algo como ‘Ambivalência Emocional’. Não encontrava, teria jogado fora mais uma das coisas que surgiam inexplicavelmente?
Confusão, livros estranhos tornando-se familiares, a imagem do quente quadril vindo em minha direção toda vez que fechava os olhos, frases sem sentidos saltando em minha cabeça: quero a morte da amada testemunha. A vida que desforra pede. Sinto o baque do chão.
Com um sorriso materno, aquela imagem desvela o antigo pano e estende uma mamadeira, uma lágrima escorre por meu rosto. Uma bicicleta cujo verde da pintura está descascado trás uma criança descalça. Um Flamboyam conta as dores de um adolescente. Um córrego arrasta a areia de uma saudade não visitada. O vento esvoaça os longos cabelos masculinos enquanto um grupo de amigos discute filosofia embaixo de árvores.
Quem me criou a vergonha do público? Quem me fez abaixar a cabeça aos olhos sedutores? Quem me fez verter versos com lágrimas? Quem me fez esquecer tudo isso?
Vejo que não deixei pra trás, mas trago escuro outro sangue que minhas veias aos poucos se mancham. Procuro poesias que possam me explicar, mas vejo um lapso, um fosso entre a criança e a dor que agora sinto. Eis o contraditório!
Pelo medo de confessar já confesso o medo de me reconhecer. Talvez um dia eu me confunda e acabe ajuizando uma poesia.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
DEPOIS
Raros teus olhos espelharam os meus
que pouco gozaram a mesma dança.
Nos imiscíveis suores a fadiga
de nosso falso amor que nada alcança.
Seríamos castos se sempre amiga
fostes de mim sem os sentidos meus
ludibriarem tua ingrata alma culpada
pensada abutre quando és Prometeu.
Deste a sede de te ver libertada,
Se hoje estás morta, ainda te ouço em cantigas
a tirar-me o sono em busca de cura
que leve esperança e traga salivas.
Tornei-me teu sonho doando ternura,
Por ti matei e tive a vida arrancada,
Sem pesar entreguei minha cega alma
crendo ser a escolhida, eterna amada.
Poucos frutos colhi em amante palma,
Mentiu seu amor em impensadas juras,
Lançou às trevas meu consternado peito
honesto em te amar, só em nova procura.
Se não és a eterna amada, já em meu leito
solitário, choro tua imensa falta.
Se sofrendo te amo e amando te afasto,
És perdição, minha sublime balda.
que pouco gozaram a mesma dança.
Nos imiscíveis suores a fadiga
de nosso falso amor que nada alcança.
Seríamos castos se sempre amiga
fostes de mim sem os sentidos meus
ludibriarem tua ingrata alma culpada
pensada abutre quando és Prometeu.
Deste a sede de te ver libertada,
Se hoje estás morta, ainda te ouço em cantigas
a tirar-me o sono em busca de cura
que leve esperança e traga salivas.
Tornei-me teu sonho doando ternura,
Por ti matei e tive a vida arrancada,
Sem pesar entreguei minha cega alma
crendo ser a escolhida, eterna amada.
Poucos frutos colhi em amante palma,
Mentiu seu amor em impensadas juras,
Lançou às trevas meu consternado peito
honesto em te amar, só em nova procura.
Se não és a eterna amada, já em meu leito
solitário, choro tua imensa falta.
Se sofrendo te amo e amando te afasto,
És perdição, minha sublime balda.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
ENGANADOR - ou Génie Malan
Quero a morte do amado testemunhaPara com ele apagar o céu que me fez acreditar
Cortar das flores os perfumes que exalei,
Da lua o mistério que me achei.
Rasgar do universo a vontade que me desviou ou o destino que me trouxe
Rogar pelo fim dos sonhos a ilusão dos Astros
E pelo castro das deusas, venenosa cegueira
Calar as Sereias que de vícios observa-nos a desgraça
De uma multidão que segue a dolorosa esperança trazida pela torta paixão.
Quero caminhar no mundo sem que este me observe
Sem deus que me vigie as normas que o assacaram
Mesmo das podres prisões intimada vida que nos deu.
Chamo-o de morte pela infame vida que me fez
Marionete de seu mundo ou jogo que me impôs.
Mas deste-me impiedoso cínico a aparente liberdade
De traçar a lâmina em meu pescoço
Fugindo da vã vontade
Que na dúvida eterna
Sangra meu ainda coração.
A VIDA QUE CEDE
A vida que desforra, pede.
A vida que desforra, pede...
Pede...
Pe de moleque.
Pe de fruta pão.
Pede manga.
Pé de camisa.
Res
Pés
Pés e mãos
Mãos de moleque
Mãos no pão
Sujas de manga
Fiapo ao dente
O ao dente da massa.
A massa do pão
Amassa a mão
Cansada que pede.
Pede e estende
Ao pé da massa
Que amassa o ventre
E cega não sente
Que seu fruto cede.
De pé ao avesso aceite
Do leite que o moleque pede
Pra vida, que deforma a pele
Da vida, que cansada fede!
. Mitre Mallamparte
A vida que desforra, pede...
Pede...
Pe de moleque.
Pe de fruta pão.
Pede manga.
Pé de camisa.
Res
Pés
Pés e mãos
Mãos de moleque
Mãos no pão
Sujas de manga
Fiapo ao dente
O ao dente da massa.
A massa do pão
Amassa a mão
Cansada que pede.
Pede e estende
Ao pé da massa
Que amassa o ventre
E cega não sente
Que seu fruto cede.
De pé ao avesso aceite
Do leite que o moleque pede
Pra vida, que deforma a pele
Da vida, que cansada fede!
. Mitre Mallamparte
Despedida em 1998

Se é um adeus, eu não sei.
Apesar de tê-lo vivido intensamente por tudo onde andei, nunca sei reconhecê-lo claramente. Quando julgo vê-lo é sempre envolto por uma nuvem árida, passageira seguida por uma imensa esperança do contínuo reencontrar-se, esperança de viver mais um momento, de amar mais uma vez, de sentir o calor e o desejo de mais um beijo que tem em cada instante de duração a certeza de haver um próximo.
Nunca quis aprender a reconhecê-lo, por mais que já tenha sentido-o, sofrido-o e jamais aceitado em todas inúmeras vezes que deparei-me com seu escuro frio de uma noite solitária.
Peço desculpa pela minha persistente mania de racionalidade, principalmente quando não a devemos usar, mas foi o modo que me entendi ou que me engano de entender-me.
Gostaria que você pudesse, ainda dentro de sua inerente e ingênua desconfiança, acompanhar por um luar as tortuosas ladeiras da minha consciência contaminada pela sede de conhecer o que há de loucura em cada segundo da nossa existência, nadar por entre abismos despida do medo de se perder, sem a vergonha que lhe impuseram, para então, compreender instintivamente minha falta de ar e excesso de paixão diante o mundo.
Se se tornam tristes as minhas palavras é por que não posso lhe pedir entendimento, rogando-lhe, então, o mais honesto perdão. Lanço-me a vida em sua crença, necessariamente gratuita, para poder perdoar-me sem eu poder confessar.
Meu Deus! Olhe para nós! O que estamos fazendo? Deixamos nosso olhos umedecerem sem saber porque... Choro por nosso destino. Adianto-me obscuramente no tempo e já lhe peço perdão por ter seu caminho cruzado ao meu.
Se não entende minha dor e por que a faço sofrer, por favor tenha fé em meus olhos. Todas as noites rezo por você, rezo para jamais machucá-la, rezo para ser perdoado do mal que lhe faço. Quando em meu quarto sozinho vejo seus olhos, os meus derramam um mar que em sua presença me afogo internamente sem ninguém ver. Estaria eu embrutecendo para não conseguir chorar deixando crescer o nó em minha garganta, traindo-me então?
Machuco-a! Pode não ver, pode não querer ver, mais é um fato. Machuco-a quando querendo, nego-me; quando não querendo, entrego-me; quando estou perto e meus olhos se fecham chorando para si uma vontade de correr não sei pra onde; toda vez que engulo seco a vontade de descobri-la sem ter os pensamentos que me corroem, mas que me mantêm vivo.
Sim, estou lhe traindo, não quando estou longe, mas quando perto, pois é onde me traio e traindo-me, não sou nada além de um fantasma inventado por nossos sonhos.
É dessa dor que vivo, da dor causado pelo medo de lhe causar dor, que então já faço. Por isso choro os seus inocentes olhos sacrificados por meu egoísmo de sobreviver sem sede enquanto espero a ceia. Engano-me! Mais nobre morrer a fazer-lhe sequer uma vez a lágrima escorrer em sua fiel face.
Minha misericórdia está no seu viver, no seu amadurecer e no acreditar cego de que a vida vale a pena não importando onde ela vá parar. Meu consolo será seu tardio agradecer ao dizer para si “eu vivi, amei, chorei e sofri e não me arrependo pois trago comigo quem sou”. O que sustenta essa esperança são as pequenas coisas que podem passar despercebidas, pois é isso: o não saber, que a deixa ainda mais bonita... Quanto a mim, só resta agradecer sua existência e por ousar sentir-me, e esperar seu perdão pois sei que virá junto com seu crescer.
Minha herança para sua vida não passará de uma fumaça dispersa num tempo esquecido, mas a beleza que ela contém e para sempre manterá está nos seus olhos, no modo em que a vê, na madura serenidade que ainda agora lhe cobro. Há coisas que não devem ser entendidas, pois é justamente no não-entender que repousa toda a beleza. Às vezes precisamos regar nossas rosas com lágrimas, outras vezes com sangue, ou ainda com suor; e sabe porque são as mais bonitas? As das lágrimas, não pelo sal, mas pela coragem de se deixar transbordar; as do sangue, não pela dor, mas por sua cor que deixa viva e não apática todas as paixões; e as do suor, não pela canseira, mas pela conquista. Não peço que entenda, mas que aceite minha dor e me afague em tuas lembranças como o desejo do mistério.
Desculpe-me pela minha ânsia instintiva de conhecer em mim todos os sentimentos e que a use para isso, pois também me deixo usar e excito em seu corpo e em sua mente a curiosidade de sentir o gosto da vida mesmo que a tenha como preço. Sentir o calor deixando-se queimar numa fogueira para ver seu peito ferver e ouvir o seu próprio crepitar no consumir-se das emoções.
Somos formados pelo que vivemos, pelo que sentimos, pelo que construímos e destruímos. Vejo-a bela, viva, corajosa sem mim, e em sua coragem deposito minha fé e minha insistência de ver seus olhos mais uma vez, se ainda ouso senti-la, mesmo sacrificando-nos, vejo meu ato legitimado no descobrir-se inadiável que trago em mim, no nascer à cada sorriso, ainda que triste, que me oferece seu rosto num momento de dúvida.
Gostaria de fazê-la sorrir o resto da vida ou de ter seus olhos sempre úmidos de satisfação pairados sobre os meus que lhe contemplariam incansáveis para além do tempo e da vida que nos envolve, mas não poderei... Consigo então existir sob uma forjada paz quando penso que ao olhar para trás você sentirá algo florescendo em seu rosto, tímido, mas sincero e malicioso sorriso de ter vivido suas paixões, um certo brilho nos olhos que poucos irão reconhecer ou mesmo notar, a não ser aqueles que saibam distinguir uma pessoa que passa por aqui de uma pessoa que vive e degusta cada intenso instante de vida que lhe foi oferecida.
Tento encontrar em minhas palavras e na esperança que vejo em seu delicado rosto a minha salvação, a minha nobreza, a minha lealdade a meu coração. Mas porque à noite algo me sufoca tanto que não consigo nem chorar? Talvez porque eu preveja a dor nos seus olhos ainda não preparados para as desavenças do mundo; ora, de onde vem essa deliciosa curiosidade de vida que me instiga a crer nas paixões? Talvez seja eu que não esteja preparado. Não sei, nesse momento, o que pensar, meu próximo passo está turvo por um sentimento inefável, mesclado de dúvida, medo, crença, paixão e amor, de loucura e paz, e nesse momento rezo com minhas lágrimas que não vejo pois me implodem...
Abaixo a cabeça, sangra-me os joelhos e meu peito, inundo-me do medo que pensei estar extinto na minha procura e lhe peço perdão. Um perdão carente querendo ficar ao abrigo de sua inocência e, ao mesmo tempo feroz como a revolta contra Deus, mas amputado, querendo ser escorraçado de sua vida como forma de absolvição.
O que esperar? Se é o senhor de todo adeus e do fim de toda dor absolva-nos Tempo, destrua minha angustia, dilacere o que acredito e faça-me renascer. Que inútil e contraditório rogar o meu, se ainda quero viver o caminho e apreciá-lo.
Dê-me piedade seus olhos para eu poder dormir e para poder caminhar, pois agora não sei onde estou e não sei mais o que dizer, lhe implorar talvez o que não possa dar, e se não pode, finja pôr-me no seu colo e fazer-me adormecer como alguém desprotegido e perdido numa floresta escura que criei.
Perdoe-me!
Apesar de tê-lo vivido intensamente por tudo onde andei, nunca sei reconhecê-lo claramente. Quando julgo vê-lo é sempre envolto por uma nuvem árida, passageira seguida por uma imensa esperança do contínuo reencontrar-se, esperança de viver mais um momento, de amar mais uma vez, de sentir o calor e o desejo de mais um beijo que tem em cada instante de duração a certeza de haver um próximo.
Nunca quis aprender a reconhecê-lo, por mais que já tenha sentido-o, sofrido-o e jamais aceitado em todas inúmeras vezes que deparei-me com seu escuro frio de uma noite solitária.
Peço desculpa pela minha persistente mania de racionalidade, principalmente quando não a devemos usar, mas foi o modo que me entendi ou que me engano de entender-me.
Gostaria que você pudesse, ainda dentro de sua inerente e ingênua desconfiança, acompanhar por um luar as tortuosas ladeiras da minha consciência contaminada pela sede de conhecer o que há de loucura em cada segundo da nossa existência, nadar por entre abismos despida do medo de se perder, sem a vergonha que lhe impuseram, para então, compreender instintivamente minha falta de ar e excesso de paixão diante o mundo.
Se se tornam tristes as minhas palavras é por que não posso lhe pedir entendimento, rogando-lhe, então, o mais honesto perdão. Lanço-me a vida em sua crença, necessariamente gratuita, para poder perdoar-me sem eu poder confessar.
Meu Deus! Olhe para nós! O que estamos fazendo? Deixamos nosso olhos umedecerem sem saber porque... Choro por nosso destino. Adianto-me obscuramente no tempo e já lhe peço perdão por ter seu caminho cruzado ao meu.
Se não entende minha dor e por que a faço sofrer, por favor tenha fé em meus olhos. Todas as noites rezo por você, rezo para jamais machucá-la, rezo para ser perdoado do mal que lhe faço. Quando em meu quarto sozinho vejo seus olhos, os meus derramam um mar que em sua presença me afogo internamente sem ninguém ver. Estaria eu embrutecendo para não conseguir chorar deixando crescer o nó em minha garganta, traindo-me então?
Machuco-a! Pode não ver, pode não querer ver, mais é um fato. Machuco-a quando querendo, nego-me; quando não querendo, entrego-me; quando estou perto e meus olhos se fecham chorando para si uma vontade de correr não sei pra onde; toda vez que engulo seco a vontade de descobri-la sem ter os pensamentos que me corroem, mas que me mantêm vivo.
Sim, estou lhe traindo, não quando estou longe, mas quando perto, pois é onde me traio e traindo-me, não sou nada além de um fantasma inventado por nossos sonhos.
É dessa dor que vivo, da dor causado pelo medo de lhe causar dor, que então já faço. Por isso choro os seus inocentes olhos sacrificados por meu egoísmo de sobreviver sem sede enquanto espero a ceia. Engano-me! Mais nobre morrer a fazer-lhe sequer uma vez a lágrima escorrer em sua fiel face.
Minha misericórdia está no seu viver, no seu amadurecer e no acreditar cego de que a vida vale a pena não importando onde ela vá parar. Meu consolo será seu tardio agradecer ao dizer para si “eu vivi, amei, chorei e sofri e não me arrependo pois trago comigo quem sou”. O que sustenta essa esperança são as pequenas coisas que podem passar despercebidas, pois é isso: o não saber, que a deixa ainda mais bonita... Quanto a mim, só resta agradecer sua existência e por ousar sentir-me, e esperar seu perdão pois sei que virá junto com seu crescer.
Minha herança para sua vida não passará de uma fumaça dispersa num tempo esquecido, mas a beleza que ela contém e para sempre manterá está nos seus olhos, no modo em que a vê, na madura serenidade que ainda agora lhe cobro. Há coisas que não devem ser entendidas, pois é justamente no não-entender que repousa toda a beleza. Às vezes precisamos regar nossas rosas com lágrimas, outras vezes com sangue, ou ainda com suor; e sabe porque são as mais bonitas? As das lágrimas, não pelo sal, mas pela coragem de se deixar transbordar; as do sangue, não pela dor, mas por sua cor que deixa viva e não apática todas as paixões; e as do suor, não pela canseira, mas pela conquista. Não peço que entenda, mas que aceite minha dor e me afague em tuas lembranças como o desejo do mistério.
Desculpe-me pela minha ânsia instintiva de conhecer em mim todos os sentimentos e que a use para isso, pois também me deixo usar e excito em seu corpo e em sua mente a curiosidade de sentir o gosto da vida mesmo que a tenha como preço. Sentir o calor deixando-se queimar numa fogueira para ver seu peito ferver e ouvir o seu próprio crepitar no consumir-se das emoções.
Somos formados pelo que vivemos, pelo que sentimos, pelo que construímos e destruímos. Vejo-a bela, viva, corajosa sem mim, e em sua coragem deposito minha fé e minha insistência de ver seus olhos mais uma vez, se ainda ouso senti-la, mesmo sacrificando-nos, vejo meu ato legitimado no descobrir-se inadiável que trago em mim, no nascer à cada sorriso, ainda que triste, que me oferece seu rosto num momento de dúvida.
Gostaria de fazê-la sorrir o resto da vida ou de ter seus olhos sempre úmidos de satisfação pairados sobre os meus que lhe contemplariam incansáveis para além do tempo e da vida que nos envolve, mas não poderei... Consigo então existir sob uma forjada paz quando penso que ao olhar para trás você sentirá algo florescendo em seu rosto, tímido, mas sincero e malicioso sorriso de ter vivido suas paixões, um certo brilho nos olhos que poucos irão reconhecer ou mesmo notar, a não ser aqueles que saibam distinguir uma pessoa que passa por aqui de uma pessoa que vive e degusta cada intenso instante de vida que lhe foi oferecida.
Tento encontrar em minhas palavras e na esperança que vejo em seu delicado rosto a minha salvação, a minha nobreza, a minha lealdade a meu coração. Mas porque à noite algo me sufoca tanto que não consigo nem chorar? Talvez porque eu preveja a dor nos seus olhos ainda não preparados para as desavenças do mundo; ora, de onde vem essa deliciosa curiosidade de vida que me instiga a crer nas paixões? Talvez seja eu que não esteja preparado. Não sei, nesse momento, o que pensar, meu próximo passo está turvo por um sentimento inefável, mesclado de dúvida, medo, crença, paixão e amor, de loucura e paz, e nesse momento rezo com minhas lágrimas que não vejo pois me implodem...
Abaixo a cabeça, sangra-me os joelhos e meu peito, inundo-me do medo que pensei estar extinto na minha procura e lhe peço perdão. Um perdão carente querendo ficar ao abrigo de sua inocência e, ao mesmo tempo feroz como a revolta contra Deus, mas amputado, querendo ser escorraçado de sua vida como forma de absolvição.
O que esperar? Se é o senhor de todo adeus e do fim de toda dor absolva-nos Tempo, destrua minha angustia, dilacere o que acredito e faça-me renascer. Que inútil e contraditório rogar o meu, se ainda quero viver o caminho e apreciá-lo.
Dê-me piedade seus olhos para eu poder dormir e para poder caminhar, pois agora não sei onde estou e não sei mais o que dizer, lhe implorar talvez o que não possa dar, e se não pode, finja pôr-me no seu colo e fazer-me adormecer como alguém desprotegido e perdido numa floresta escura que criei.
Perdoe-me!
terça-feira, 18 de agosto de 2009
γνῶθι σεαυτόν
Conheci outros mundos
Mas de ti não parti.
Leguei-te meu mundo
E partiste de mim.
... por mar sem me amar
me deixando sem norte
sem Ser e sem ar
e nem na morte
o anseio de findar.
Oferto-te a dor de negar
Mas me negas por medo de amar
Pra sofrer o pesar dos injustos
Que te rejeita estrangeiro
Do mundo que te quero curar.
Não me intenta tua paz,
Não me apazigua tua calma
Minh’alma há muito não cala
E na calada da noite põe-se a gritar:
Pecado não há pra quem deu-se a amar!
Mitre Mallamparte
Mas de ti não parti.
Leguei-te meu mundo
E partiste de mim.
... por mar sem me amar
me deixando sem norte
sem Ser e sem ar
e nem na morte
o anseio de findar.
Oferto-te a dor de negar
Mas me negas por medo de amar
Pra sofrer o pesar dos injustos
Que te rejeita estrangeiro
Do mundo que te quero curar.
Não me intenta tua paz,
Não me apazigua tua calma
Minh’alma há muito não cala
E na calada da noite põe-se a gritar:
Pecado não há pra quem deu-se a amar!
Mitre Mallamparte
domingo, 16 de agosto de 2009
AMAR, VERBO INDEFECTÍVEL
Infinitar a palavra que nada diz
Dizendo o que não há pelo que se tem
Ilude a Verdade, fazendo-a então,
Pois afirmando o Nada, é o Tudo que vem.
Como o Vazio que a tudo preenche
Só existe no peito enquanto se pensa
Mas existe sozinho no impensável leito
Pois afirmando o Nada, tudo é crença:
Não se vê o que existe
E se vive no que diz ser
Sendo só! Filho morto e triste,
— O produto do que não há
Inexiste no infinitado Ser,
Findando aqui o futuro Amar.
Mitre Mallamparte
Dizendo o que não há pelo que se tem
Ilude a Verdade, fazendo-a então,
Pois afirmando o Nada, é o Tudo que vem.
Como o Vazio que a tudo preenche
Só existe no peito enquanto se pensa
Mas existe sozinho no impensável leito
Pois afirmando o Nada, tudo é crença:
Não se vê o que existe
E se vive no que diz ser
Sendo só! Filho morto e triste,
— O produto do que não há
Inexiste no infinitado Ser,
Findando aqui o futuro Amar.
Mitre Mallamparte
sábado, 15 de agosto de 2009
MEU FALSO AMOR
Temos, Amor, de ir embora
Embora seja cedo...
E sede ainda tenho de te amar.
Tens, Amor, trancas na janela
Quisera te soltar...
Mas amar requer que esqueçamos medos.
Tenho, Amor, minha porta aberta
Me inverna tua ausência...
Ciência que não mais devo voltar.
Teu caminho já está traçado
Cansado de implorar
Por um novo começo
Que nunca está perto de chegar.
Vou-me embora agora
Não venhas me chamar
Pro teu fim que trágico escanteia
O maior amor que te puderam dar.
Temos amor em ir embora
Embora seja cedo
E sede ainda tenho de amar
Minha vida chama
E em meu peito não pode parar
Quem parado está chorando
Rezando pra não ter onde voar.
Desculpe, Amor, minha impaciência,
Essência de quem ama...
De quem procura por olhos em chamas
E almas prestes a se entregar.
Temos de ir embora
Agora, que ainda é cedo
Pois de sede não irás me matar.
Teus olhos, teu corpo se adianta
Pra vida que pensei te dar
Mas tua alma estanca
Na liberdade de teu caminho traçar.
Deixas-me acordado, a meu futuro olhar
Enquanto dormente segues
e cega jamais verás
O mundo que iria te dar.
Estou indo embora
Agora, que ainda é cedo
Pra essa sede em outra alma saciar.
Minhas luas já me fazem envelhecer
Mas meus sonhos renascem a cada dia.
Pena negar-te a te conhecer
Fazendo-me despedir com essa última poesia.
Mitre Mallamparte
Embora seja cedo...
E sede ainda tenho de te amar.
Tens, Amor, trancas na janela
Quisera te soltar...
Mas amar requer que esqueçamos medos.
Tenho, Amor, minha porta aberta
Me inverna tua ausência...
Ciência que não mais devo voltar.
Teu caminho já está traçado
Cansado de implorar
Por um novo começo
Que nunca está perto de chegar.
Vou-me embora agora
Não venhas me chamar
Pro teu fim que trágico escanteia
O maior amor que te puderam dar.
Temos amor em ir embora
Embora seja cedo
E sede ainda tenho de amar
Minha vida chama
E em meu peito não pode parar
Quem parado está chorando
Rezando pra não ter onde voar.
Desculpe, Amor, minha impaciência,
Essência de quem ama...
De quem procura por olhos em chamas
E almas prestes a se entregar.
Temos de ir embora
Agora, que ainda é cedo
Pois de sede não irás me matar.
Teus olhos, teu corpo se adianta
Pra vida que pensei te dar
Mas tua alma estanca
Na liberdade de teu caminho traçar.
Deixas-me acordado, a meu futuro olhar
Enquanto dormente segues
e cega jamais verás
O mundo que iria te dar.
Estou indo embora
Agora, que ainda é cedo
Pra essa sede em outra alma saciar.
Minhas luas já me fazem envelhecer
Mas meus sonhos renascem a cada dia.
Pena negar-te a te conhecer
Fazendo-me despedir com essa última poesia.
Mitre Mallamparte
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Meu encontro num corpo feminino
De inebriante insinuação abstrata,
Pura forma de essência pouco casta,
Dá a um ser marcado olhos de menino.
A ninfa do Saber que me arrebata
À dúvida, prende-me em laço fino
À insegurança e na surpresa oscilo:
Físico e sublime que seu nome ata.
Extasiado em descompassado enredo,
Graça inocente do aflorado instinto,
Observo o amor, as sombras reprimindo.
Nessa incoerência, sou insano sem medo:
Lanço em sua vida os desejos que sinto
E em sua carne minh´alma se despindo.
De inebriante insinuação abstrata,
Pura forma de essência pouco casta,
Dá a um ser marcado olhos de menino.
A ninfa do Saber que me arrebata
À dúvida, prende-me em laço fino
À insegurança e na surpresa oscilo:
Físico e sublime que seu nome ata.
Extasiado em descompassado enredo,
Graça inocente do aflorado instinto,
Observo o amor, as sombras reprimindo.
Nessa incoerência, sou insano sem medo:
Lanço em sua vida os desejos que sinto
E em sua carne minh´alma se despindo.
TRANSMUTAÇÃO DE ALMA
Outro eu em você
Que me força querer
De mim força pra ser
Em você o mesmo eu
Seu querer não me quer
Bem pra si como sou
Mas não será de mim
Pois sou outro que vou
A solidão se divide
Da vida só(,) em dois
Se somos nós que nos temos
Dizemos então solidões...
Mas não somos pra nós
Nem de si nem de mim
O que fui pra você
E de você o que vim
Não me é o que sei
Se é que sei sobre você
O desejo inesperado
Da surpresa de se ter
Como ceder de mim, se não sou
Para si o que pensa,
O que tenho pra você
Mas não espera que seja
Se a alma, então,
Se move por si
Do corpo esperamos fusão
Se nos temos somente corpo
Que a alma se divida então
Em sentimento ora vivo, ora morto.
Que me força querer
De mim força pra ser
Em você o mesmo eu
Seu querer não me quer
Bem pra si como sou
Mas não será de mim
Pois sou outro que vou
A solidão se divide
Da vida só(,) em dois
Se somos nós que nos temos
Dizemos então solidões...
Mas não somos pra nós
Nem de si nem de mim
O que fui pra você
E de você o que vim
Não me é o que sei
Se é que sei sobre você
O desejo inesperado
Da surpresa de se ter
Como ceder de mim, se não sou
Para si o que pensa,
O que tenho pra você
Mas não espera que seja
Se a alma, então,
Se move por si
Do corpo esperamos fusão
Se nos temos somente corpo
Que a alma se divida então
Em sentimento ora vivo, ora morto.
EU CHORO VOCÊ
Eu choro você.
Choro o que deixo de lhe ensinar
Choro o que nunca vou lhe aprender.
Choro seu corpo distante
O seu perfume que de minha pele se esvai.
Sangro sua alma enjaulada
E as chaves que devo esconder,
Em cada gota, em cada lágrima...
Eu choro você.
Devagar e dolorosamente
Você se apaga de mim e me vertem
As lágrimas do amor que não mais cabe em mim.
Você é a rara lágrima que choro sem amor
Quando eu choro você.
Choro o que deixo de lhe ensinar
Choro o que nunca vou lhe aprender.
Choro seu corpo distante
O seu perfume que de minha pele se esvai.
Sangro sua alma enjaulada
E as chaves que devo esconder,
Em cada gota, em cada lágrima...
Eu choro você.
Devagar e dolorosamente
Você se apaga de mim e me vertem
As lágrimas do amor que não mais cabe em mim.
Você é a rara lágrima que choro sem amor
Quando eu choro você.
AMOR, OBJETO CULTURAL
Quê importa o fim se não almejo chegar?
Razão não há nas curvas que te percorro.
Se nesse rastro, de prazer eu morro
O Fim nele mesmo se diz morar.
Não preciso ser, se me basta estar
Noites após dias em teu pensamento
E na umidade do teu movimento,
Estanque porto que irás atracar.
Da tua vida só me legue o desejo,
A única verdade da tua alma,
O que restou puro em meio a teus medos.
Não busco a tua história, nem tua dor
Somente a verdade, essa nossa fome
Do inato sexo que destrona amor!
Razão não há nas curvas que te percorro.
Se nesse rastro, de prazer eu morro
O Fim nele mesmo se diz morar.
Não preciso ser, se me basta estar
Noites após dias em teu pensamento
E na umidade do teu movimento,
Estanque porto que irás atracar.
Da tua vida só me legue o desejo,
A única verdade da tua alma,
O que restou puro em meio a teus medos.
Não busco a tua história, nem tua dor
Somente a verdade, essa nossa fome
Do inato sexo que destrona amor!
Cronos
Todos nós temos nossos anjos e demônios. E a essência humana é a ambivalência emocional. Reúno, pois, em mim, minha única desgraça que é também minha salvação: o Tempo. Cronos não é só meu deus, a quem temo e honro. É mais. É meu castigo, meu crime, minha pena e absolvição.
Ele me trai como um amante. Me instiga como o sexo que irá acontecer, para no fim me abençoar com a maior cura: o Esquecimento.
Não sei se sou eu quem o desafia com minha vontade de viver, com meu desejo sempre infantil de me satisfazer, me lambuzar de prazer e, então, me condena a um desafio ainda maior: matar-me a cada esquina. Pareço percorrer o traçado de Shiva que extermina para reconstruir em seguida, dando vida ao mundo que acabou de aniquilar. Dizem que meu deus devora os próprios filhos... Assim fosse... Pareço mais Prometeu que, no raro instante de não sofrimento, ainda guarda todas as cicatrizes do seu destino.
Lanças-me num tempo que não pertenço. Com que prazer me trazes a bola quando já levo bengala, ou a sabedoria quando só quero paixões?
Que triste prazer sentes ao me ver definhar ante a Fonte que não posso tocar, não posso beber, me saciar?
Por que me trazes a teu Templo se tua sacerdotisa é mera fumaça do que possuo? Mas uma fumaça que não mais sinto...
Quê me adianta se teus campos floridos só se revelam agora, após ter sulcado o mais árido deserto?
Não me oferta tua casa se de minhas mãos erigi meu castelo... não o perturbe, não o abale, pois já o fazes em ruínas por seu fugaz abrigo.
Para me dilacerar, usa de meu maior inimigo, o único que pode me ofertar desgraças e prazeres com a mesma intensidade. Transforma-me num duplo de sentidos e razões. E nessa dicotomia, me confunde e definho deixando perecer a beleza de cada caminho, sobrando-me somente cinzas.
“... Cinzas do tempo que persigo sem saber...”
Ele me trai como um amante. Me instiga como o sexo que irá acontecer, para no fim me abençoar com a maior cura: o Esquecimento.
Não sei se sou eu quem o desafia com minha vontade de viver, com meu desejo sempre infantil de me satisfazer, me lambuzar de prazer e, então, me condena a um desafio ainda maior: matar-me a cada esquina. Pareço percorrer o traçado de Shiva que extermina para reconstruir em seguida, dando vida ao mundo que acabou de aniquilar. Dizem que meu deus devora os próprios filhos... Assim fosse... Pareço mais Prometeu que, no raro instante de não sofrimento, ainda guarda todas as cicatrizes do seu destino.
Lanças-me num tempo que não pertenço. Com que prazer me trazes a bola quando já levo bengala, ou a sabedoria quando só quero paixões?
Que triste prazer sentes ao me ver definhar ante a Fonte que não posso tocar, não posso beber, me saciar?
Por que me trazes a teu Templo se tua sacerdotisa é mera fumaça do que possuo? Mas uma fumaça que não mais sinto...
Quê me adianta se teus campos floridos só se revelam agora, após ter sulcado o mais árido deserto?
Não me oferta tua casa se de minhas mãos erigi meu castelo... não o perturbe, não o abale, pois já o fazes em ruínas por seu fugaz abrigo.
Para me dilacerar, usa de meu maior inimigo, o único que pode me ofertar desgraças e prazeres com a mesma intensidade. Transforma-me num duplo de sentidos e razões. E nessa dicotomia, me confunde e definho deixando perecer a beleza de cada caminho, sobrando-me somente cinzas.
“... Cinzas do tempo que persigo sem saber...”
Mitre Mallamparte
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