DO AMBIENTE
FALHO À DESCONTINUIDADE DE SER
Breve análise do filme “PERFUME – A História de Um Assassino[1]” a
partir do ponto de vista psicanalítico winnicottiano
Os bebês não amam.
É preciso que sejam amados.
Ferenczi (1932)
Do Olfato
A Guisa de Introdução
“… As
pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e
podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não
podiam escapar do aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele
penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para
dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá
categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem
dominasse os odores dominaria o coração das pessoas”[2].
Na primeira cena
do filme, a partir da qual se fará um flashback,
a primeira imagem que aparece é o nariz do protagonista, que sai da sombra e
‘fareja’ pessoas se aproximando, as quais o levarão para ouvir sua sentença.
Como indica o
próprio título da obra, todo o enredo – espelhando o desenvolvimento do
personagem principal – se constitui a partir do olfato de J. B. Grenouille, olfato
que, ficcionalmente, poder-se-ia chamar de absoluto. Podia distinguir todos os
odores existentes no mundo, ao mesmo tempo em que não era seletivo quanto aos
odores ruins e bons, fato esse que por sua vez remete ao caráter amoral do personagem que, como se verá,
era incapaz de distinguir o bem do mal, da mesma forma que seus atos eram
desprovidos de juízo de valor, simplesmente precisava ou não de algo e assim
agia.
Pertinente
observar que quando se fala de odores e de nosso sentido olfativo, além do
caráter invasivo, dificilmente se pode desvencilhar tal percepção da nossa
capacidade de registro mnêmico.
Parece que há uma
conexão direta entre nossa memória e os odores que pudemos sentir durante nossa
vida, notavelmente nossas memórias primitivas, infantis. Pode-se dizer, então,
que o olfato facilita um contato com nossa origem
sentimental, como uma herança instintiva daquele ser vocacionado somente
para o sentir – o bebê.
Quando um odor
nos remete a algum episódio ou sensação infantil, não se está simplesmente
falando de ‘vir uma lembrança à mente’, mas ocorre um fenômeno sensorial como
se fôssemos lançados de modo físico a algum episódio arcaico em nossas vidas. Da
mesma forma, falando-se em Psicanálise, não se pode olvidar que uma das
principais características do Inconsciente é a sua atemporalidade. Aspecto esse que determina atitudes e escolhas
atuais vinculadas às vivências passadas, indistintamente.
E assim se
constitui Jean Baptiste Grenouille, a partir desse hiper-sentido que é o olfato,
sua única via de relacionamento com o mundo. Sem afeto, sem cuidado, sem
qualquer comunicação visual, sem nenhum olhar como espelho, paradoxalmente
nascido num ambiente inimaginavelmente fétido. J. B. Grenouille – conhecendo o
mundo através do primado do olfato – constitui-se como ‘um nariz’[3].
A partir dessas
considerações pretende-se realizar um esboço esquemático de algumas ideias
centrais da teoria de Winnicott quanto ao desenvolvimento psicoemocional do
indivíduo.
Longe de se
tentar esgotar tais conceitos, utilizar-se-á de algumas passagens do filme O Perfume para ilustrar os pontos chaves
que se pretende evidenciar, sendo, notadamente, num primeiro momento, os
seguintes: A importância do ambiente facilitador, bem como a atenção materna
primária e as suas consequências quanto à integração, a responsabilidade e a
inibição.
Num segundo
momento, ainda no corpo do texto, a partir do sentimento de não-existência do
protagonista, observar-se-á questões como a agressividade, entendida
primitivamente como movimento, bem
como a formação do falso-self como
sintoma daquele primeiro ambiente. Por fim, ainda conquanto às questões
relacionadas à continuidade do ser, pincelará questões sobre o estado de relaxamento, bem como a
obsessividade do personagem na sua busca de Ser,
através de toda simbologia que permeia a obra cinematográfica.
Do Ambiente Falho à
Descontinuidade de Ser
“Quanto menor for
a criança, maior será o perigo de separá-la de sua mãe”[4].
Winnicott sempre
mantém-se atendo ao binômio do desenvolvimento psicoemocional do indivíduo,
relevando a importância da tendência
pessoal para o desenvolvimento, ou processo de maturação, bem como a do ambiente facilitador representado pelos
seres humanos que se adaptam às necessidades da criança.
O início do filme
parece deixar muito claro, ainda que ficcionalmente, essa questão: a
contraposição entre uma pulsão de vida extraordinária do protagonista e um
ambiente (mãe-ambiente) absurdamente
inóspito.
Voltando a
atenção principalmente à questão ambiental e à atenção materna primária,
ressalta-se algumas assertivas de Winnicott:
“A totalidade do
relacionamento desse novo indivíduo com o mundo real tem que se basear na forma
como as coisas iniciam e no padrão que se desenvolve gradualmente, de acordo
com a experiência que faz parte deste relacionamento humano entre o bebê e a
mãe”[5]
“No início é o ato
físico de segurar a estrutura física do bebê que vai resultar em circunstâncias
satisfatórias ou desfavoráveis em termos psicológicos. Segurar e manipular bem
uma criança facilita os processos de maturação, e segurá-la mal significa uma
incessante interrupção destes processos, devido às reações do bebê às quebras
de adaptação”[6].
Portanto, sabendo
como ocorrera o nascimento de Grenouille, e tendo em mente o entendimento
acerca da importância dos cuidados iniciais que o meio fornece, ou deixa de
fornecer, ao bebê, torna-se clara as consequências daí advindas quanto à
estrutura da personalidade do indivíduo.
Winnicott releva,
por conseguinte, a importância ambiental para o bebê naquilo que denomina
integração, como a seguir exemplificado:
“A integração
também é estimulada pelo cuidado ambiental. Em psicologia, é preciso dizer que
o bebê se desmancha em pedaços a não ser que alguém o mantenha inteiro. Nestes
estágios o cuidado físico é um cuidado psicológico”[7].
Ora, parece não
haver integração em J.
B. Grenouille , como que constituído apenas como olfato.
Parece não haver um “eu” e um “não-eu”, um dentro e um fora, tudo
parece ser percebido objetivamente. Não há integração, não há objeto bom, não
há, consequentemente, ambivalência e a culpa dela decorrente. Ou seja, não há
que se falar em aceitação da
responsabilidade por parte do protagonista do filme.
Winnicott deixa
bastante claro a relação entre integração e responsabilidade no sentido aqui
exposto:
“...se podemos
conceber uma pessoa plenamente integrada, então essa pessoa assume plena
responsabilidade por todos os
sentimentos e idéias que acompanham o estar vivo”[8].
Assim, tentando
fazer cessar o grito da moça das frutas amarelas, Grenouille acaba matando-a. Fica
claro que ele não sente por tê-la matado, no máximo expressa estranheza, mas
evidentemente se nota o quanto se angustia quando percebe que o perfume da
virgem se esvaiu daquele corpo. Tal fato, a partir da observação acerca das
consequências dos atos, revela o quanto não houve amadurecimento emocional no
personagem. Como bem nos observa Winnicott:
“Na criança em
processo de amadurecimento surge uma alternativa muito importante à destruição.
É a construção. (...) em condições ambientais favoráveis, um impulso
construtivo está relacionado com a aceitação pessoal, por parte da criança, da
responsabilidade pelo aspecto destrutivo da sua natureza”[9].
Portanto, resta
bastante evidente – seja pela morte do outro, seja pela forma com que tenta
sugar o odor daquele corpo – o intenso grau da dependência para a satisfação de
necessidades afetivas/vitais, necessidades essas narcísicas, não objetais.
Da mesma forma, e
ainda se falando em não-integração vez que nunca houvera um ambiente
suficientemente bom, torna-se inimaginável a capacidade de amar para esse
indivíduo, e mesmo para sentir-se amado.
“Se ela [a mãe] não for ‘boa’ o bastante nesse sentido, o
bebê não terá qualquer esperança de tornar-se capaz de manter relacionamentos
excitados com objetos ou pessoas naquilo que nós, como observadores, chamamos o
mundo real, externo ou compartilhado, ou seja, o mundo não criado pelo bebê”[10].
No filme também não
passa despercebida a inibição de Grenouille, sintetizada pelo aspecto da
linguagem, da fala, pois com cinco anos ainda não falava e, segundo o narrador “quando aprendeu a falar descobriu que a
linguagem era inadequada para as experiências olfativas que se acumulavam
dentro dele”.
Ora, ainda
repisando as consequências de um ambiente falho, ressalte-se algumas passagens
de Winnicott:
“... o processo de
desenvolvimento é retardado pelas reações aos maus-tratos, que fragmentam a
linha contínua que é a criança”[11].
“Devido ao fato
de os bebês serem criaturas cuja dependência é extrema no início de suas vidas,
eles são necessariamente afetados por tudo que acontece. (...) de uma forma capaz de dar-lhes confiança no
mundo ou, pelo contrário, de deixá-los com falta de confiança e com a sensação
de serem um pedaço de cortiça no oceano, um joguete das circunstâncias. No
extremo da falha ambiental, há uma sensação de imprevisibilidade”[12].
Inimagináveis
podem ser as consequências de um ambiente falho, da ausência da função especular
materna e de toda atenção primária que imprescinde aos cuidados iniciais de um
indivíduo. Obviamente sabe-se que as condições iniciais do protagonista do
filme fariam que o mesmo seguisse o destino de seus irmãos, todos mortos. Mas a
ficção que assistimos serve, como até então utilizado, para se esboçar alguns
aspectos relevantes para a constituição psíquica do indivíduo, como a seguir se
continuará a analisar.
“O primeiro som
que J. B. Grenouille emitiu mandou sua mãe para a forca”.
O modo como é
descrito, notadamente pelo verbo mandar,
parece trazer consigo uma carga de agressividade, quase que no sentido
intencional/consciente.
Interessante
observar, em contrapartida, o que Winnicott afirma:
“O que logo será
comportamento agressivo não passa, no início, de um simples impulso que leva a
um movimento e aos primeiros passos de uma exploração”[13].
Ou seja, o enredo
do filme parece por em proporções concretas o afirmado acima quanto à relação
entre agressividade e movimento, notavelmente porque todas as
vezes em que ocorre um movimento por J. B. Grenouille, alguém morre; seja a sua
mãe, seja a Mme. Gailard, seja o dono do curtume Monsieur Grimal ou o mestre
perfumista Baldini. Como que vítimas de seu movimento.
Novamente,
portanto, evidencia-se o aspecto simbólico do filme, acrescido ao que já se
observou quanto à amoralidade do personagem, representada pela sua indistinção
entre odores bons e ruins, e à atemporalidade do inconsciente, representada
pelo efeito sensorial que o olfato provoca.
Retornando-se,
pois, à questão do ambiente facilitador, tem-se então que J. B. Grenouille fora
privado de qualquer tipo de afeto, quão mais de estabilidade ambiental e
cuidados individuais continuados.
Após a execução
de sua mãe, fora levado por madame Gailard, cujo interesse era tão somente
financeiro. Mal chegara ao abrigo, ainda recém-nascido, outras crianças
tentaram matá-lo, ao que resistiu ruidosamente. Aos treze anos foi vendido a um
curtume, lugar sabidamente de terrível odor.
Nesse momento o
narrador informa que Grenouille era fisicamente muito resistente e muito bem se
adaptou, tornando-se dócil e diligente.
Parece descrever,
na verdade, uma domesticação. Remetendo-nos, ao que se percebe, à constituição
de um falso self; pois resta claro que faz o que os outros esperavam dele e não
o que ele mesmo desejava... Mas nesse instante surge a questão: O que, enfim, J.
B. Grenouille desejava?
Como mais a
frente restará claro, Grenouille buscava preencher-se daquilo que nunca tivera.
Grenouille buscava existir!
Winnicott, descrevendo
uma forma mais simples de cisão, afirma que:
“A criança apresenta
uma vitrine, ou uma metade voltada para fora, construída com base em submissão
e complacência, ao passo que a parte principal do eu, contendo toda a
espontaneidade, é mantida em segredo e permanentemente envolvida em relações
ocultas com objetos de fantasias idealizados”[14].
Assim, o
protagonista representa ficcionalmente o mais absurdo grau patológico de
ausência de um ambiente suficientemente bom. Sabidamente o falso self traz consigo uma sensação avassaladora de
vazio, de inexistência de si e, talvez por essa razão, nota-se adaptar-se às
exigências daquele meio. O que logo se altera drasticamente ao sentir o perfume
da primeira virgem.
“Há pessoas que
passam toda a vida não sendo, num esforço desesperado para encontrar uma base
para ser. Para as pessoas esquizóides (...) pernicioso significa qualquer coisa
falsa, como o fato de estar vivo por condescendência”[15].
Logo, o que Grenouille
deseja é uma base para Ser, um
preenchimento: alma e amor.
Talvez também
pelo seu caráter outrora descrito como ganancioso, não baste simplesmente
recriar o perfume Amor e Psique, ele
precisa melhorá-lo! Da mesma forma busca
o ser-amado, através do perfume eterno. Tamanho o vazio interno a ser preenchido,
tamanha a sensação sintomatica de descontinuidade.
Antes, porém, de
continuar nesse trajeto, salutar relevar outras observações que devem ser
acrescidas ao que até agora se descreveu, pois confluentes, senão vejamos.
É bastante
notável que J. B. Grenouille comumente encontrava-se nas sombras onde outras
pessoas não o podiam ver. Como se não existisse.
Ressalta-se,
portanto e nesse instante, a contraposição entre essa existência à sombra – bem
como o perceber o mundo pelo olfato e de olhos fechados –, de um lado, e de
outro a belíssima fotografia do filme, parecendo enfatizar a distância entre o primado do instinto e o humanizado, como que inacessível, a J.
B. Grenouille, o Mundo Simbólico.
Tal observação se
coaduna com o fato de que o protagonista, ele próprio, não possuía qualquer
odor e que ouvira do mestre perfumista Baldini que “a alma dos seres é o aroma deles”.
Tal fato pode ser
entendido como antevisão e compilamento da obra.
Primeiramente
quanto ao modo com que Grenouille apreende o mundo. Além de percebê-lo a partir
do seu sentido mais apurado, ele o apreende concretamente – assim, tudo o que
ouve é entendido literalmente – não há o faz-de-conta.
Exemplo disso é a
reação furiosa que J. B. Grenouille esboça ao perceber que a máxima do Mestre
Baldini não era verdadeira: “você pode
extrair o odor de qualquer coisa”.
Outra passagem
que bem ilustra esse fato é quando o Perfumista Baldini conta a lenda do
perfume perfeito encontrado num sarcófago, do qual se pode reproduzir doze
essências sendo que a décima terceira nunca fora encontrada. Quando J. B.
Grenouille pergunta o porquê não havia sido encontrado, Mestre Baldini
manifestamente irritado responde que se trata tão somente de uma lenda,
afirmação que é seguida por outra questão emblemática do aprendiz: “O que é lenda?”.
Em segundo lugar,
e ainda mais essencial para compreender o personagem a partir do enfoque proposto,
é a conclusão – a partir do silogismo[16]
acima – de que J. B. Grenouille não
possui alma!
Acredita-se que
alma, nesse contexto, pode ser entendida, além de existência, também como humanidade.
Facilmente se percebe que J. B. Grenouille ao encontrar a primeira mulher que
parece despertar seus sentidos, age como um bicho, fareja, espreita e tenta se
apropriar daquilo animalescamente, privado de qualquer senso moral, privado de
racionalidade, de humanidade.
Esse parece ser,
portanto, o fio condutor de todas as ações do personagem, a partir do qual nos
é permitido acompanhar, já sem muito estranhamento, todos os seus passos.
Logo, há que se
relevar que o protagonista, guiado pelo olfato, guiado por essa via de gozo, busca
obsessivamente possuir algo que o defina como existente, sua identidade, sua
essência. Conectando-se assim, os sentidos de alma e existência.
“A sensorialidade
defensiva se faz necessária na ausência do ‘senso de existência’. O nosso
protagonista, Grenouille, buscou no olfato (sensorial olfativo) evidências de
estar vivo, existindo: ‘cheiro, logo existo’. Enquanto suas narinas eram
impregnadas pelos milhares de odores do mundo, ele sentia-se vivo; os estímulos
sensoriais reasseguravam sua existência. É como os pacientes psicóticos que
fazem feridas na própria pele, beliscando-se até sangrarem, e isso não lhes
constitui dor ou sofrimento, mas sim alívio: ‘sinto (dor), logo existo’”[17].
A necessidade de
Grenouille, bem como o seu agir, torna clara (e honesta) sua resposta, ainda
que sob tortura, quando inquirido da razão que o levou a matar a personagem
Laura: “simplesmente por que eu precisava
dela”.
Em outro momento,
retomando o aspecto simbólico do filme, não se pode deixar de considerar a
passagem em que o protagonista se refugia numa caverna.
Assim, após a frustração
com seu mestre perfumista, quando se deu conta da impossibilidade de se extrair
o odor de todas as coisas, restando acamado, quase sem vida, o personagem
principal renova sua potencialidade pela esperança de haver outro método de se
conter (aprisionar) o perfume – L’enfleurage. E assim parte para a cidade de
Grasse.
No caminho para
Grasse – mais longe da humanidade/civilização, aqui simbolizada por Paris – “cada vez mais para o pólo magnético da maior
solidão”, acaba sendo atraído para uma caverna quase sem aroma. Assim,
longe daquele centro cívico consegue pela primeira vez encontrar certa tranquilidade,
quando enfim, segundo o narrador, pode
deleitar sua existência, sem distração de nada externo, parecendo descrever
o estado de relaxamento enunciado por Winnicott.
Talvez ousando-se
um pouco, possa-se dizer que esse momento represente um retorno ao útero, não
somente pela facilidade de se ter a caverna como esse símbolo, mas
principalmente pelo fato de que desde que J. B. Grenouille nasceu, somente
encontrou um ambiente áspero, nada facilitador de qualquer desenvolvimento
emocional. Assim, possivelmente, o único instante de vida em que possuiu paz
foi dentro do útero de sua mãe pouco maternal. Conflui-se a isso o modo como é
descrita a caverna, cheirava somente a “pedra
morta - fria”. Ora, antes dele, outros bebês foram gerados e nenhum deles
sobreviveu devido ao ambiente ‘árido’ de cuidados que a mãe proporcionava.
Ocorre que, após
certo tempo nesse ambiente, novamente algo o impulsiona, é quando descobre que
não possui cheiro próprio. Nesse momento aquelas alusões anteriores quanto à
inexistência de identidade torna-se concreta para J. B. Grenouille. A falta de
odor deixa claro para si que é insignificante para todos, como se de fato não
existisse, tomado por um “medo do próprio
esquecimento”. Medo esse que poderíamos descrever, utilizando a
nomenclatura de Winnicott, como uma angústia inimaginável. Como que
‘descontinuado’ – arrancada uma parte de sua própria substância.
Fazendo com que,
enfim, J. B. Grenouille retome sua busca pela existência, almejada por ele como
a tentativa de se criar o perfume perfeito.
Após todo o
trajeto do personagem, ele consegue enfim formular o perfume eterno, sublime.
Um modus operandi idêntico a de um
bebê, que pode ser muito bem traduzido pelas palavras de Winnicott:
“A fantasia que
acompanha as pulsões vigorosas do id contém ataques e destruição. Não é só que
o bebê imagina que come o objeto, mas também quer apossar-se do conteúdo do
objeto. Se o objeto não é destruído, isso se deve à sua própria capacidade de
sobrevivência, não ao fato de o bebê protege-lo”[18].
Nesse sentido,
novamente se pode pôr em relevo o aspecto amoral do protagonista, notadamente
se se atentar ao que afirma o Psicanalista: ‘a não-integração é acompanhada por uma não-consciência’[19].
Assim, mesmo de
posse do extasiante perfume, mesmo tendo o domínio emocional de todos os
presentes que esperavam vê-lo executado, algo ocorre e novamente Grenouille se
vê sem ação.
Criara um perfume
que tinha uma magia tão incrível que quando espalhado entre as pessoas, fazia
com que elas tomassem para si as características do perfume, desencadeando uma
paixão avassaladora e incontrolável entre os mesmos, o que culminou numa orgia
entre todos os presentes inspirados e cegados pelo puro sentir, pelo puro
instinto.
Enquanto todos se
amavam, ele permanecia alheio. Mas ao ver frutas amarelas caindo, lembra da sua
primeira vítima e, em fantasia, ele é abraçado, acolhido, amado. Parece estar
ali, pela primeira vez, um sentimento de pertença, continência e
continuidade... Mas era só uma fantasia.
Em seguida, realmente
e pela primeira vez, enfim ele é abraçado e chamado de “meu filho!”. Mas pelo pai de sua última e mais desejada vítima.
Pela pessoa que provavelmente Grenouille mais fez sofrer.
Tendo, pois,
criado o perfume e podendo ter o amor da humanidade sob seu domínio, ainda
assim tal perfume “não podia fazer dele
uma pessoa capaz de amar e ser amada como todas as outras”.
Assim, quando
mata a primeira mulher e percebe que com a vida dela o perfume também se esvai,
J. B. Grenouille transparece sua angustia e tal fato já resumia o final do
filme quando, mesmo podendo possuir o amor de todos, continuou vazio
internamente.
Não resta chance
de existência para Grenouille. Como dito numa citação acima, seria falsa,
perniciosa, restando ao protagonista ser devorado por aqueles que habitavam o
meio em que outrora nascera.
Pertinente
ressaltar que quando foi devorado, promoveu uma “felicidade infantil (...) como se pela primeira vez fizeram algo por
puro amor”, lembrando-se nesse instante que fora devorado com voracidade,
termo que compila: amor e agressão.
Mas enfim –
legítimo questionar nesse momento –, por que na cena final Grenouille foi
devorado, diferentemente do que ocorre na praça de sua frustrada execução? Ora,
pode-se pensar, a multidão que o assistia fora impregnado pelo perfume e seu
efeito, despertados para o amor e o amar, neles era possível a relação de objeto. Em contrapartida, na
cena final, aquelas pessoas foram descritas quase na mesma categoria de
Grenouille, ou seja, carentes de afeto e cuidados básicos, possuidores de todas
as falhas imagináveis no processo de desenvolvimento emocional, sobrevivendo à
sombra, à margem da humanidade e, portanto, assim como ele, vazios
internamente. Tal fato, por conseguinte, deixa clara a razão daquele ataque
voraz àquilo que representava algo de sublime, devorando-o, introjetando-o
animalescamente, numa busca desesperada pela sensação de preenchimento, de
existência e pertença.
CONCLUSÃO
“Por
que me queres ver? – perguntava [Eros a Psique]. – Podes duvidar de meu amor? Tens algum desejo que não foi satisfeito? Se
me vires, talvez fosses temer-me, talvez adorar-me, mas a única coisa que peço
é que me ames. Prefiro que me ames como igual a que me adores como deus”[20].
O primeiro aroma
que J. B. Grenouille recria é de um perfume chamado amor e psique. Amor e Alma parecem ser as duas coisas inexistentes
no protagonista – nunca amara e nem fora amado; também possui um vazio interno,
no qual deveria habitar sua essência, ousia,
sua alma.
Após recriar
aquele perfume, ele o melhora. Nesse ponto há uma evidência do que busca,
revelando mais uma vez o que fora descrito como ganância – tão desmedida quanto
ao seu vazio interno. Busca o perfume eterno, perfeito e sublime, ter mais alma
e ser mais amado que todos – ser amado como um Deus! – aquilo que Eros, o próprio amor, tenta evitar com
sua invisibilidade ante Psique.
Percebe-se,
portanto, que Grenouille, devido à total ausência de suprimento afetivo, devido
ao total desamparo, acabou por tornar-se insaciável, evidenciando, por
conseguinte, todo o papel patogênico do ambiente a que estava inserido. O
resultado disso é o vazio impreenchível explicitado após o clímax do filme,
quando percebe Grenouille que mesmo podendo possuir o amor de toda a humanidade,
mesmo podendo ser amado como um deus, o vazio permanece... E retorna aonde
nascera para findar-se despedaçado, não-existente.
Pela teoria psicanalítica
em foco, observamos que o bebê Jean Baptiste Grenouille nunca fora ‘visto’ e,
conseqüentemente nunca pode olhar criativamente e ver o mundo, pois totalmente
ausente a função especular materna. Ora, diz-se que o bebê não existe sozinho,
somente se considerada a maternagem que o envolve. Assim, é como se ele não
visse a si mesmo, sentimento esse simbolizado pela ausência de odor e pelo seu
consequente medo de esquecer-se a si próprio.
Da mesma forma,
Winnicott entende o trauma como uma reação do sujeito à intrusão. Invasão essa
que, como se viu, não faltou àquele bebê, seja pelo fétido odor que sentira ao
nascer, seja por ser tratado como vísceras a serem descartadas no esgoto, seja
pelo sufocamento sofrido ao chegar ao abrigo e tantas outras inimagináveis.
Assim,
completando o sentido de ‘sentir-se não-existente’ acima mencionado, temos que
um bebê, enquanto estiver reagindo não há a “continuidade de ser”. Ou seja,
reagindo, o bebê não está existindo.
Portanto, a sua
morte, sendo devorado, parece ser a solução para a frustração de nunca ter
alcançado seu objetivo de ser preenchido, embora agindo como Psique, que no escuro deleitava-se
instintualmente com Eros. O que para
ela não bastou, devido à sua curiosidade, Psique
passou por inúmeras provações, inclusive descendo a Hades, antes de tornar-se imortal como seu par.
“No grau extremo de
cisão, a criança não tem qualquer razão para viver. Nos níveis menos elevados
existe um certo sentimento de futilidade relativo à vida falsa, e uma busca
incessante daquela outra vida que seria sentida como real, mesmo que levasse à
morte”[21].
Tentou-se nessas
breves considerações apresentar alguns conceitos Winnicottianos aplicáveis ao
filme “Perfume”, porém relevando-se a
estrutura temporal do enredo acaba por se remeter também ao desenvolvimento
psicossexual por Freud elaborado.
Muito
sinteticamente, parece saltar aos olhos três momentos bastante distintos
vivenciados pelo protagonista. O primeiro inclui três fases, sendo , o nascimento
e a infância de Grenouille, o tempo de trabalho no curtume e o aprendizado com
o mestre Baldini; o segundo momento é quando o protagonista passa algum tempo na
caverna e, por fim, o terceiro, quando ele chega à Grasse, domina o método de
extrair o aroma das flores e o aplica nas mulheres a fim de criar o perfume
perfeito.
Pode-se, assim,
imaginar um paralelo das três fases do primeiro momento com as fases do desenvolvimento
sexual das crianças, quais sejam, a fase oral, que no caso se poderia dizer
olfativa, via pela qual apreende o mundo, quando há o primado do instinto. Em
seguida, o trabalho no curtume representaria a fase anal, quando se evidencia o
(auto-)controle e a atividade laboral
do protagonista e, a terceira, a fase fálica, quando mais salta aos olhos a
questão do prazer e do desprazer e as consequências dessas descobertas advindas.
Ressalte-se
também que a parte final da primeira grande fase inicia-se quando Grenouille
sente pela primeira vez os bons odores de uma loja de perfumes e em seguida se
depara com o aroma extasiante da vendedora de frutas (a manifestação do desejo
erótico de posse, sexualmente semelhante à do adulto) e encerra-se com a saída
da casa de Baldini e sua morte, o que poderia significar o parricídio
(notadamente pelo aspecto da evidente superação do mestre pelo aprendiz), não
sem antes Grenouille frustrar-se veementemente ao descobrir falho o ensinamento
do Mestre Baldini quanto à possibilidade de se extrair o odor de todas as
coisas, que nesse momento, mas só a ele restrito, poderia significar a
castração.
Buscando não se
alongar demasiadamente sobre essas observações, parece possível identificar as
três grandes etapas do amadurecimento sexual humano, sendo a primeira a tenra
infância até a dissolução do complexo de Édipo, a segunda, na caverna, corresponderia
ao período de latência e a terceira à maturidade sexual, quando Grenouille
efetiva sua busca por reconhecimento de si, simbolizada por sua jornada em
Grasse.
Acrescendo-se ao
descrito acima quanto à possibilidade de se entender o filme também a partir de
conceitos freudianos, talvez caiba nesse momento uma última observação acerca
do aspecto simbólico presente em toda obra analisada.
Pode-se dizer que
o filme é permeado a todo tempo de muita sensualidade, seja pelo caráter
preementemente olfativo, seja pelas belas mulheres e paisagens e o modo com que
Grenouille manipulava seus objetos, bem como o clímax do filme quando uma
multidão é invadida sensorialmente. Pode-se dizer mais, que em todo o filme se
observa o caráter sensual, excetuando-se, talvez, a cena inicial de seu
nascimento?
Grenouille nasceu
descartado como lixo, como vísceras, nascido para em seguida perecer, mas,
invadido e internamente impregnado pelos odores de um mercado de peixes, fez-se
mais forte sua pulsão de vida e por ela clamou.
Talvez então, abusando
do caráter simbólico do filme, simbólico esse paradoxalmente desconhecido ao
protagonista, pode-se imaginar que a exceção apontada não se distancia tanto do
resto do filme. Ora, comumente, e jocosamente, é utilizado comparações entre o
odor de peixe com a genitália feminina. As próprias características do peixe,
seus movimentos, fluidos e natural viscosidade também podem ser relacionados
aos órgãos genitais numa relação sexual. Tal fato, portanto, parece coadunar-se
ao simbolismo entranhado de todo o enredo da obra, afinal, como disse Santo
Agostinho: inter urinas et faeces
nascimur.
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e Delinquência; tradução Álvaro Cabral – 5º edição. São Paulo: Editora WMF
Martins Fontes, 2012.
____________. Os
Bebês e Suas Mães, tradução Jefferson Luiz Camargo – 2º edição. São Paulo:
Martins Fontes, 1999.
[1]
Ressalta-se que a obra estudada trata-se apenas do filme e não do livro que o
inspirou.
[2] Trecho
do livro de Patrick Süskind, retirado do site:
“http://pensador.uol.com.br/frase/NTMwNzcz/”
[3] Em
momento algum J.B. Grenouille se alimenta durante o filme. O olfato, portanto, parece
ser sua ingestão, a via pela qual busca internalizar o mundo externo.
[4] Pág. 11
– Privação...
[5] Pág. 56
– Os Bebês...
[6] Pág. 54
– Os Bebês...
[7] Pág. 137
– Natureza...
[8] Pág. 155
– Privação...
[9] Pág. 107
– Privação...
[10] Pág.
121 – Natureza...
[11] Pág. 55
– Os Bebês...
[12] Pág. 74
– Os Bebês...
[13] Pág.
104 – Privação...
[14] Pág.
199 – Privação...
[15] Págs.
125/126 – Privação...
[16] A alma
dos seres é o aroma deles e Jean Baptiste Grenouille não possui odor.
[17] Ribeiro, Paulo de Morais M.
[18] Pág.
115 – Privação...
[19] Pág.
136 – Natureza...
[20] Pág.
104 – O livro de Ouro da Mitologia.
[21] Pág.
128 – Natureza...
