Não conheci ninguém que se lembrasse do início, por isso somente posso tentar traduzir em sentimentos, não fatos. Mas até mesmo as sensações a que me remetem também não são claras.
Inicialmente dois sentimentos me povoavam, distintos e talvez complementares. De um lado um grande vazio, a sensação de um lento caminhar para o nada, sem objetivo; nunca procurando, sempre na espera de algo desconhecido. Sentia-me amarrada, fadada ao abismo que se repetia a cada lua.
Do lado oposto, sem preocupar-me com as paisagens, ansiando sempre o fim, sentia-me, na gana de chegar, desintegrado, perdendo partes de mim, perdendo as forças e morrendo cego, sozinho, a cada final de dia.
Em comum, desses sentimentos que não se comunicavam, havia somente um ponto. O conhecido desejo de se encontrar bem como ao desconhecido. O impulso platônico para a comunhão ideada.
Quando se quer, o tempo se repete sem caminhar, nos envolvendo e nos sufocando em nossos medos.
Mas de repente um elo parece se romper e toda a pesada corrente se solta deixando-nos ao prazer do vento. Não há mais a espera, não há mais o fim. Os anseios, os medos, o fado, a cegueira, tudo se concentra na delícia do encontro, no pasmo da luz, na simplicidade do estar.
O triste fim não ocorreu, e o vazio se tornou pleno.
União, Unidade!
Como descrever? Uma explosão de cores e sentidos? Uma implosão fazendo-me voltar sobre mim, reflexo da natureza? Um infindo multiplicar-se de si mesmo, caleidoscópio de vidas e sentidos.
Nesse novo fervilhar orgânico, um conhecer-se a cada instante, um mundo formando-se, uma organização criando-se por si. Causa de si mesma!
Um desenvolver-se alucinante e frenético, fervilhar febril que aos poucos se vai amainando pelas dimensões já conquistadas, que na proporção de seu tamanho já traz a calma e a paz do caminhar objetivo, mas ainda quente.
Não sei ao que me remeter... ao mito paradisíaco? Quando não se tem desejos? Ou aonde todo anseio é satisfeito? Ao eterno abraço... ao infindável envolvimento, amparo, guarida e cuidado...
Amor! Sim... Mera satisfação é incompleta, fraca ante ao que sentia... Nunca se repetiu, nunca mais senti nada igual, todos os outros raros momentos de amor que senti foram fugazes lapsos, fagulhas de felicidade, ou melhor, de esperança de felicidade. Aquilo que se busca após, acredito, é somente uma tentativa inútil e inconsciente de se voltar àquele estado em que se confunde e magicamente se somam os instantes imediatamente antes e imediatamente depois ao orgasmo: convulsão e a inércia, juntas, ao mesmo tempo... mas ainda assim é pouco para traduzir. Talvez se somássemos a isso a rara sensação de completude, da estagnação do tempo, do fugir-se de si, do flutuar... do desprendimento de toda forma física acrescida da sensação de tudo, em si... conter!
A aparente calmaria. A delícia do navegar, do contemplar. O início do sentir, do se-sentir! Ser!
Até então, tinha a sensação do uno, de tudo conter, de ser o todo, mas algo novo senti e me assustei: o outro! Mas o quê? O que era aquilo? Existia algo além de mim, mas não identificava. Será que o que me acolhia era diferente de mim, da minha sensação de paz? Afinal, sentia um mover-se contínuo e o próprio sentir parecia distinguir-se, especificar-se e novas formas de perceber multiplicavam-se em mim... o sentir como um todo não aumentara, mas parecia desintegrar-se, dividir-se em parte menores que se complementavam num novo entendimento...
Tive, pela primeira vez, a certeza do outro. O tocar! Sujeito e objeto: nova forma de conhecer! Enfim algo se diferenciava de mim. O susto, o desconhecido, medo e prazer. Novidade... e o descobrir-se contínuo mudava o foco... A inversão copernicana... Existia vida independente naquela sensação de envolvimento e colo, era o outro que me ofertava prazer, paz.
Sabores, estímulos, a novidade contínua. Vermelho... incômodo e excitação, delícia e medo...meu olhar. Vozes... de início extremamente baixas, sussurrantes. Segredos? Aos poucos quebravam o contínuo embalar, eterno, pulsante. Antes era só um sentir interno, como se integrasse ao todo, a mim: um fundo musical para a lenta expansão desse universo... Logo depois, ainda silencioso e ainda mais interno, um pulsar mais acelerado, como se com sede, como que jovem, dando cadência àquele fervilhar de vida. Agora já os ouvia, distintos, um a me embalar, outro a me manter... era uma dança constante, linda, na qual toda suavidade se fazia absorver, penetrar em cada célula, ser cada célula.
Essa cadência, então, começara a ser entrecortada por outros sons... Vozes! Conversas nas quais uma voz distinta estava sempre presente, a mais doce, a mais familiar e acolhedora. As vezes ouvia uma voz mais grave, carinhosa e nesse instante sentia que aquele permanente abraço se fazia mais forte, mais envolvente... Queria participar, queria compartilhar o que sentia e ouvia, mas nenhum som saía de mim, então me comunicava com a única coisa que possuía desde sempre, interagia com o mover-se. Não era consciente, claro, era uma expressão: sentia e precisava catexiar, e como vinha, ia! Também queria abraçar...
A percepção do outro só aumentava, diminuindo aquele ensimesmamento... Sensação de abrir os olhos... Luz! A quebra da unidade, da barreira entre mundos apartados. Encontro sem fusão! Intimidade...
Não sei se por essa nova sensação, se por essa crescente curiosidade, necessidade de contato, mas o fato é que algo que hoje traduzo como impaciência se apoderou de mim... Sentia-me sufocar, não cabia mais em mim, um empertigar, vontade de me expulsar, assim como a todas as minhas ânsias, agora também crescentes...
Algo como a curiosidade, uma força corrosiva vindo de dentro, o não mais bastar-se. Tudo era grande demais. Era isso, explosão! Meu fim...
Depois de todas as minhas experiências, só restava meu fim, escoar-me de mim. Dissolver-me melancolicamente ou desintegrar-me numa explosão. Não sei, sei que precisava rasgar.
E acho que foi assim... uma ansiedade incontrolável, crescente, clímax... e quando pensava vir o silêncio absoluto... de repente os sons mudam, outras vozes, outras luzes, ofuscantes, cegantes...
Frio.
Senti-me arrancada. Nada mais gélido, branco, inóspito. Desespero! Desespero! Porque a morte não me vinha suave? Arrastada, impotente, e o frio me penetrava, enrijecia, me trincava o corpo... e quando sabia não mais poder resistir, ouvi ao fundo uma voz doce, suave, acolhedora... fui novamente envolvida, abraçada e o quente colo novamente me abraçava.
Aquela voz chamava meu nome, fui colocada em seu peito. Não estava morta. Era Primavera. Era 29 de Setembro de 2009. Nesse dia eu nasci!

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