quinta-feira, 8 de maio de 2014

DO AMBIENTE FALHO À DESCONTINUIDADE DE SER


DO AMBIENTE FALHO À DESCONTINUIDADE DE SER

Breve análise do filme “PERFUME – A História de Um Assassino[1]” a partir do ponto de vista psicanalítico winnicottiano







Os bebês não amam.
É preciso que sejam amados.

Ferenczi (1932)




Do Olfato
A Guisa de Introdução


“… As pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar do aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas”[2].


Na primeira cena do filme, a partir da qual se fará um flashback, a primeira imagem que aparece é o nariz do protagonista, que sai da sombra e ‘fareja’ pessoas se aproximando, as quais o levarão para ouvir sua sentença.

Como indica o próprio título da obra, todo o enredo – espelhando o desenvolvimento do personagem principal – se constitui a partir do olfato de J. B. Grenouille, olfato que, ficcionalmente, poder-se-ia chamar de absoluto. Podia distinguir todos os odores existentes no mundo, ao mesmo tempo em que não era seletivo quanto aos odores ruins e bons, fato esse que por sua vez remete ao caráter amoral do personagem que, como se verá, era incapaz de distinguir o bem do mal, da mesma forma que seus atos eram desprovidos de juízo de valor, simplesmente precisava ou não de algo e assim agia.


Pertinente observar que quando se fala de odores e de nosso sentido olfativo, além do caráter invasivo, dificilmente se pode desvencilhar tal percepção da nossa capacidade de registro mnêmico.

Parece que há uma conexão direta entre nossa memória e os odores que pudemos sentir durante nossa vida, notavelmente nossas memórias primitivas, infantis. Pode-se dizer, então, que o olfato facilita um contato com nossa origem sentimental, como uma herança instintiva daquele ser vocacionado somente para o sentir – o bebê.

Quando um odor nos remete a algum episódio ou sensação infantil, não se está simplesmente falando de ‘vir uma lembrança à mente’, mas ocorre um fenômeno sensorial como se fôssemos lançados de modo físico a algum episódio arcaico em nossas vidas. Da mesma forma, falando-se em Psicanálise, não se pode olvidar que uma das principais características do Inconsciente é a sua atemporalidade. Aspecto esse que determina atitudes e escolhas atuais vinculadas às vivências passadas, indistintamente.

E assim se constitui Jean Baptiste Grenouille, a partir desse hiper-sentido que é o olfato, sua única via de relacionamento com o mundo. Sem afeto, sem cuidado, sem qualquer comunicação visual, sem nenhum olhar como espelho, paradoxalmente nascido num ambiente inimaginavelmente fétido. J. B. Grenouille – conhecendo o mundo através do primado do olfato – constitui-se como ‘um nariz’[3].


A partir dessas considerações pretende-se realizar um esboço esquemático de algumas ideias centrais da teoria de Winnicott quanto ao desenvolvimento psicoemocional do indivíduo.

Longe de se tentar esgotar tais conceitos, utilizar-se-á de algumas passagens do filme O Perfume para ilustrar os pontos chaves que se pretende evidenciar, sendo, notadamente, num primeiro momento, os seguintes: A importância do ambiente facilitador, bem como a atenção materna primária e as suas consequências quanto à integração, a responsabilidade e a inibição.

Num segundo momento, ainda no corpo do texto, a partir do sentimento de não-existência do protagonista, observar-se-á questões como a agressividade, entendida primitivamente como movimento, bem como a formação do falso-self como sintoma daquele primeiro ambiente. Por fim, ainda conquanto às questões relacionadas à continuidade do ser, pincelará questões sobre o estado de relaxamento, bem como a obsessividade do personagem na sua busca de Ser, através de toda simbologia que permeia a obra cinematográfica.




Do Ambiente Falho à Descontinuidade de Ser

“Quanto menor for a criança, maior será o perigo de separá-la de sua mãe”[4].



Winnicott sempre mantém-se atendo ao binômio do desenvolvimento psicoemocional do indivíduo, relevando a importância da tendência pessoal para o desenvolvimento, ou processo de maturação, bem como a do ambiente facilitador representado pelos seres humanos que se adaptam às necessidades da criança.

O início do filme parece deixar muito claro, ainda que ficcionalmente, essa questão: a contraposição entre uma pulsão de vida extraordinária do protagonista e um ambiente (mãe-ambiente) absurdamente inóspito.

Voltando a atenção principalmente à questão ambiental e à atenção materna primária, ressalta-se algumas assertivas de Winnicott:

A totalidade do relacionamento desse novo indivíduo com o mundo real tem que se basear na forma como as coisas iniciam e no padrão que se desenvolve gradualmente, de acordo com a experiência que faz parte deste relacionamento humano entre o bebê e a mãe”[5]

No início é o ato físico de segurar a estrutura física do bebê que vai resultar em circunstâncias satisfatórias ou desfavoráveis em termos psicológicos. Segurar e manipular bem uma criança facilita os processos de maturação, e segurá-la mal significa uma incessante interrupção destes processos, devido às reações do bebê às quebras de adaptação”[6].

Portanto, sabendo como ocorrera o nascimento de Grenouille, e tendo em mente o entendimento acerca da importância dos cuidados iniciais que o meio fornece, ou deixa de fornecer, ao bebê, torna-se clara as consequências daí advindas quanto à estrutura da personalidade do indivíduo.


Winnicott releva, por conseguinte, a importância ambiental para o bebê naquilo que denomina integração, como a seguir exemplificado:

“A integração também é estimulada pelo cuidado ambiental. Em psicologia, é preciso dizer que o bebê se desmancha em pedaços a não ser que alguém o mantenha inteiro. Nestes estágios o cuidado físico é um cuidado psicológico”[7].


Ora, parece não haver integração em J. B. Grenouille, como que constituído apenas como olfato. Parece não haver um “eu” e um “não-eu”, um dentro e um fora, tudo parece ser percebido objetivamente. Não há integração, não há objeto bom, não há, consequentemente, ambivalência e a culpa dela decorrente. Ou seja, não há que se falar em aceitação da responsabilidade por parte do protagonista do filme.

Winnicott deixa bastante claro a relação entre integração e responsabilidade no sentido aqui exposto:

...se podemos conceber uma pessoa plenamente integrada, então essa pessoa assume plena responsabilidade por todos os sentimentos e idéias que acompanham o estar vivo”[8].


Assim, tentando fazer cessar o grito da moça das frutas amarelas, Grenouille acaba matando-a. Fica claro que ele não sente por tê-la matado, no máximo expressa estranheza, mas evidentemente se nota o quanto se angustia quando percebe que o perfume da virgem se esvaiu daquele corpo. Tal fato, a partir da observação acerca das consequências dos atos, revela o quanto não houve amadurecimento emocional no personagem. Como bem nos observa Winnicott:

Na criança em processo de amadurecimento surge uma alternativa muito importante à destruição. É a construção. (...) em condições ambientais favoráveis, um impulso construtivo está relacionado com a aceitação pessoal, por parte da criança, da responsabilidade pelo aspecto destrutivo da sua natureza”[9].


Portanto, resta bastante evidente – seja pela morte do outro, seja pela forma com que tenta sugar o odor daquele corpo – o intenso grau da dependência para a satisfação de necessidades afetivas/vitais, necessidades essas narcísicas, não objetais.


Da mesma forma, e ainda se falando em não-integração vez que nunca houvera um ambiente suficientemente bom, torna-se inimaginável a capacidade de amar para esse indivíduo, e mesmo para sentir-se amado.

Se ela [a mãe] não for ‘boa’ o bastante nesse sentido, o bebê não terá qualquer esperança de tornar-se capaz de manter relacionamentos excitados com objetos ou pessoas naquilo que nós, como observadores, chamamos o mundo real, externo ou compartilhado, ou seja, o mundo não criado pelo bebê”[10].


No filme também não passa despercebida a inibição de Grenouille, sintetizada pelo aspecto da linguagem, da fala, pois com cinco anos ainda não falava e, segundo o narrador “quando aprendeu a falar descobriu que a linguagem era inadequada para as experiências olfativas que se acumulavam dentro dele”.

Ora, ainda repisando as consequências de um ambiente falho, ressalte-se algumas passagens de Winnicott:

... o processo de desenvolvimento é retardado pelas reações aos maus-tratos, que fragmentam a linha contínua que é a criança”[11].

“Devido ao fato de os bebês serem criaturas cuja dependência é extrema no início de suas vidas, eles são necessariamente afetados por tudo que acontece. (...) de uma forma capaz de dar-lhes confiança no mundo ou, pelo contrário, de deixá-los com falta de confiança e com a sensação de serem um pedaço de cortiça no oceano, um joguete das circunstâncias. No extremo da falha ambiental, há uma sensação de imprevisibilidade”[12].


Inimagináveis podem ser as consequências de um ambiente falho, da ausência da função especular materna e de toda atenção primária que imprescinde aos cuidados iniciais de um indivíduo. Obviamente sabe-se que as condições iniciais do protagonista do filme fariam que o mesmo seguisse o destino de seus irmãos, todos mortos. Mas a ficção que assistimos serve, como até então utilizado, para se esboçar alguns aspectos relevantes para a constituição psíquica do indivíduo, como a seguir se continuará a analisar.




“O primeiro som que J. B. Grenouille emitiu mandou sua mãe para a forca”.

O modo como é descrito, notadamente pelo verbo mandar, parece trazer consigo uma carga de agressividade, quase que no sentido intencional/consciente.


Interessante observar, em contrapartida, o que Winnicott afirma:

O que logo será comportamento agressivo não passa, no início, de um simples impulso que leva a um movimento e aos primeiros passos de uma exploração[13].


Ou seja, o enredo do filme parece por em proporções concretas o afirmado acima quanto à relação entre agressividade e movimento, notavelmente porque todas as vezes em que ocorre um movimento por J. B. Grenouille, alguém morre; seja a sua mãe, seja a Mme. Gailard, seja o dono do curtume Monsieur Grimal ou o mestre perfumista Baldini. Como que vítimas de seu movimento.



Novamente, portanto, evidencia-se o aspecto simbólico do filme, acrescido ao que já se observou quanto à amoralidade do personagem, representada pela sua indistinção entre odores bons e ruins, e à atemporalidade do inconsciente, representada pelo efeito sensorial que o olfato provoca.


Retornando-se, pois, à questão do ambiente facilitador, tem-se então que J. B. Grenouille fora privado de qualquer tipo de afeto, quão mais de estabilidade ambiental e cuidados individuais continuados.

Após a execução de sua mãe, fora levado por madame Gailard, cujo interesse era tão somente financeiro. Mal chegara ao abrigo, ainda recém-nascido, outras crianças tentaram matá-lo, ao que resistiu ruidosamente. Aos treze anos foi vendido a um curtume, lugar sabidamente de terrível odor.

Nesse momento o narrador informa que Grenouille era fisicamente muito resistente e muito bem se adaptou, tornando-se dócil e diligente.

Parece descrever, na verdade, uma domesticação. Remetendo-nos, ao que se percebe, à constituição de um falso self; pois resta claro que faz o que os outros esperavam dele e não o que ele mesmo desejava... Mas nesse instante surge a questão: O que, enfim, J. B. Grenouille desejava?

Como mais a frente restará claro, Grenouille buscava preencher-se daquilo que nunca tivera. Grenouille buscava existir!


Winnicott, descrevendo uma forma mais simples de cisão, afirma que:

“A criança apresenta uma vitrine, ou uma metade voltada para fora, construída com base em submissão e complacência, ao passo que a parte principal do eu, contendo toda a espontaneidade, é mantida em segredo e permanentemente envolvida em relações ocultas com objetos de fantasias idealizados”[14].

Assim, o protagonista representa ficcionalmente o mais absurdo grau patológico de ausência de um ambiente suficientemente bom. Sabidamente o falso self  traz consigo uma sensação avassaladora de vazio, de inexistência de si e, talvez por essa razão, nota-se adaptar-se às exigências daquele meio. O que logo se altera drasticamente ao sentir o perfume da primeira virgem.

Há pessoas que passam toda a vida não sendo, num esforço desesperado para encontrar uma base para ser. Para as pessoas esquizóides (...) pernicioso significa qualquer coisa falsa, como o fato de estar vivo por condescendência”[15].


Logo, o que Grenouille deseja é uma base para Ser, um preenchimento: alma e amor.

Talvez também pelo seu caráter outrora descrito como ganancioso, não baste simplesmente recriar o perfume Amor e Psique, ele precisa melhorá-lo! Da mesma forma busca o ser-amado, através do perfume eterno. Tamanho o vazio interno a ser preenchido, tamanha a sensação sintomatica de descontinuidade.


Antes, porém, de continuar nesse trajeto, salutar relevar outras observações que devem ser acrescidas ao que até agora se descreveu, pois confluentes, senão vejamos.


É bastante notável que J. B. Grenouille comumente encontrava-se nas sombras onde outras pessoas não o podiam ver. Como se não existisse.

Ressalta-se, portanto e nesse instante, a contraposição entre essa existência à sombra – bem como o perceber o mundo pelo olfato e de olhos fechados –, de um lado, e de outro a belíssima fotografia do filme, parecendo enfatizar a distância entre o primado do instinto e o humanizado, como que inacessível, a J. B. Grenouille, o Mundo Simbólico.

Tal observação se coaduna com o fato de que o protagonista, ele próprio, não possuía qualquer odor e que ouvira do mestre perfumista Baldini que “a alma dos seres é o aroma deles”.

Tal fato pode ser entendido como antevisão e compilamento da obra.

Primeiramente quanto ao modo com que Grenouille apreende o mundo. Além de percebê-lo a partir do seu sentido mais apurado, ele o apreende concretamente – assim, tudo o que ouve é entendido literalmente – não há o faz-de-conta.

Exemplo disso é a reação furiosa que J. B. Grenouille esboça ao perceber que a máxima do Mestre Baldini não era verdadeira: “você pode extrair o odor de qualquer coisa”.

Outra passagem que bem ilustra esse fato é quando o Perfumista Baldini conta a lenda do perfume perfeito encontrado num sarcófago, do qual se pode reproduzir doze essências sendo que a décima terceira nunca fora encontrada. Quando J. B. Grenouille pergunta o porquê não havia sido encontrado, Mestre Baldini manifestamente irritado responde que se trata tão somente de uma lenda, afirmação que é seguida por outra questão emblemática do aprendiz: “O que é lenda?”.

Em segundo lugar, e ainda mais essencial para compreender o personagem a partir do enfoque proposto, é a conclusão – a partir do silogismo[16] acima – de que J. B. Grenouille não possui alma!

Acredita-se que alma, nesse contexto, pode ser entendida, além de existência, também como humanidade. Facilmente se percebe que J. B. Grenouille ao encontrar a primeira mulher que parece despertar seus sentidos, age como um bicho, fareja, espreita e tenta se apropriar daquilo animalescamente, privado de qualquer senso moral, privado de racionalidade, de humanidade.

Esse parece ser, portanto, o fio condutor de todas as ações do personagem, a partir do qual nos é permitido acompanhar, já sem muito estranhamento, todos os seus passos.

Logo, há que se relevar que o protagonista, guiado pelo olfato, guiado por essa via de gozo, busca obsessivamente possuir algo que o defina como existente, sua identidade, sua essência. Conectando-se assim, os sentidos de alma e existência.

A sensorialidade defensiva se faz necessária na ausência do ‘senso de existência’. O nosso protagonista, Grenouille, buscou no olfato (sensorial olfativo) evidências de estar vivo, existindo: ‘cheiro, logo existo’. Enquanto suas narinas eram impregnadas pelos milhares de odores do mundo, ele sentia-se vivo; os estímulos sensoriais reasseguravam sua existência. É como os pacientes psicóticos que fazem feridas na própria pele, beliscando-se até sangrarem, e isso não lhes constitui dor ou sofrimento, mas sim alívio: ‘sinto (dor), logo existo’[17].


A necessidade de Grenouille, bem como o seu agir, torna clara (e honesta) sua resposta, ainda que sob tortura, quando inquirido da razão que o levou a matar a personagem Laura: “simplesmente por que eu precisava dela”.



Em outro momento, retomando o aspecto simbólico do filme, não se pode deixar de considerar a passagem em que o protagonista se refugia numa caverna.

Assim, após a frustração com seu mestre perfumista, quando se deu conta da impossibilidade de se extrair o odor de todas as coisas, restando acamado, quase sem vida, o personagem principal renova sua potencialidade pela esperança de haver outro método de se conter (aprisionar) o perfume – L’enfleurage. E assim parte para a cidade de Grasse.

No caminho para Grasse – mais longe da humanidade/civilização, aqui simbolizada por Paris – “cada vez mais para o pólo magnético da maior solidão”, acaba sendo atraído para uma caverna quase sem aroma. Assim, longe daquele centro cívico consegue pela primeira vez encontrar certa tranquilidade, quando enfim, segundo o narrador, pode deleitar sua existência, sem distração de nada externo, parecendo descrever o estado de relaxamento enunciado por Winnicott.

Talvez ousando-se um pouco, possa-se dizer que esse momento represente um retorno ao útero, não somente pela facilidade de se ter a caverna como esse símbolo, mas principalmente pelo fato de que desde que J. B. Grenouille nasceu, somente encontrou um ambiente áspero, nada facilitador de qualquer desenvolvimento emocional. Assim, possivelmente, o único instante de vida em que possuiu paz foi dentro do útero de sua mãe pouco maternal. Conflui-se a isso o modo como é descrita a caverna, cheirava somente a “pedra morta - fria”. Ora, antes dele, outros bebês foram gerados e nenhum deles sobreviveu devido ao ambiente ‘árido’ de cuidados que a mãe proporcionava.

Ocorre que, após certo tempo nesse ambiente, novamente algo o impulsiona, é quando descobre que não possui cheiro próprio. Nesse momento aquelas alusões anteriores quanto à inexistência de identidade torna-se concreta para J. B. Grenouille. A falta de odor deixa claro para si que é insignificante para todos, como se de fato não existisse, tomado por um “medo do próprio esquecimento”. Medo esse que poderíamos descrever, utilizando a nomenclatura de Winnicott, como uma angústia inimaginável. Como que ‘descontinuado’ – arrancada uma parte de sua própria substância.

Fazendo com que, enfim, J. B. Grenouille retome sua busca pela existência, almejada por ele como a tentativa de se criar o perfume perfeito.

Após todo o trajeto do personagem, ele consegue enfim formular o perfume eterno, sublime. Um modus operandi idêntico a de um bebê, que pode ser muito bem traduzido pelas palavras de Winnicott:

A fantasia que acompanha as pulsões vigorosas do id contém ataques e destruição. Não é só que o bebê imagina que come o objeto, mas também quer apossar-se do conteúdo do objeto. Se o objeto não é destruído, isso se deve à sua própria capacidade de sobrevivência, não ao fato de o bebê protege-lo”[18].

Nesse sentido, novamente se pode pôr em relevo o aspecto amoral do protagonista, notadamente se se atentar ao que afirma o Psicanalista: ‘a não-integração é acompanhada por uma não-consciência’[19].


Assim, mesmo de posse do extasiante perfume, mesmo tendo o domínio emocional de todos os presentes que esperavam vê-lo executado, algo ocorre e novamente Grenouille se vê sem ação.

Criara um perfume que tinha uma magia tão incrível que quando espalhado entre as pessoas, fazia com que elas tomassem para si as características do perfume, desencadeando uma paixão avassaladora e incontrolável entre os mesmos, o que culminou numa orgia entre todos os presentes inspirados e cegados pelo puro sentir, pelo puro instinto.

Enquanto todos se amavam, ele permanecia alheio. Mas ao ver frutas amarelas caindo, lembra da sua primeira vítima e, em fantasia, ele é abraçado, acolhido, amado. Parece estar ali, pela primeira vez, um sentimento de pertença, continência e continuidade... Mas era só uma fantasia.

Em seguida, realmente e pela primeira vez, enfim ele é abraçado e chamado de “meu filho!”. Mas pelo pai de sua última e mais desejada vítima. Pela pessoa que provavelmente Grenouille mais fez sofrer.

Tendo, pois, criado o perfume e podendo ter o amor da humanidade sob seu domínio, ainda assim tal perfume “não podia fazer dele uma pessoa capaz de amar e ser amada como todas as outras”.

Assim, quando mata a primeira mulher e percebe que com a vida dela o perfume também se esvai, J. B. Grenouille transparece sua angustia e tal fato já resumia o final do filme quando, mesmo podendo possuir o amor de todos, continuou vazio internamente.

Não resta chance de existência para Grenouille. Como dito numa citação acima, seria falsa, perniciosa, restando ao protagonista ser devorado por aqueles que habitavam o meio em que outrora nascera.

Pertinente ressaltar que quando foi devorado, promoveu uma “felicidade infantil (...) como se pela primeira vez fizeram algo por puro amor”, lembrando-se nesse instante que fora devorado com voracidade, termo que compila: amor e agressão.


Mas enfim – legítimo questionar nesse momento –, por que na cena final Grenouille foi devorado, diferentemente do que ocorre na praça de sua frustrada execução? Ora, pode-se pensar, a multidão que o assistia fora impregnado pelo perfume e seu efeito, despertados para o amor e o amar, neles era possível a relação de objeto. Em contrapartida, na cena final, aquelas pessoas foram descritas quase na mesma categoria de Grenouille, ou seja, carentes de afeto e cuidados básicos, possuidores de todas as falhas imagináveis no processo de desenvolvimento emocional, sobrevivendo à sombra, à margem da humanidade e, portanto, assim como ele, vazios internamente. Tal fato, por conseguinte, deixa clara a razão daquele ataque voraz àquilo que representava algo de sublime, devorando-o, introjetando-o animalescamente, numa busca desesperada pela sensação de preenchimento, de existência e pertença.



CONCLUSÃO


Por que me queres ver? – perguntava [Eros a Psique]. – Podes duvidar de meu amor? Tens algum desejo que não foi satisfeito? Se me vires, talvez fosses temer-me, talvez adorar-me, mas a única coisa que peço é que me ames. Prefiro que me ames como igual a que me adores como deus[20].


O primeiro aroma que J. B. Grenouille recria é de um perfume chamado amor e psique. Amor e Alma parecem ser as duas coisas inexistentes no protagonista – nunca amara e nem fora amado; também possui um vazio interno, no qual deveria habitar sua essência, ousia, sua alma.

Após recriar aquele perfume, ele o melhora. Nesse ponto há uma evidência do que busca, revelando mais uma vez o que fora descrito como ganância – tão desmedida quanto ao seu vazio interno. Busca o perfume eterno, perfeito e sublime, ter mais alma e ser mais amado que todos – ser amado como um Deus! – aquilo que Eros, o próprio amor, tenta evitar com sua invisibilidade ante Psique.

Percebe-se, portanto, que Grenouille, devido à total ausência de suprimento afetivo, devido ao total desamparo, acabou por tornar-se insaciável, evidenciando, por conseguinte, todo o papel patogênico do ambiente a que estava inserido. O resultado disso é o vazio impreenchível explicitado após o clímax do filme, quando percebe Grenouille que mesmo podendo possuir o amor de toda a humanidade, mesmo podendo ser amado como um deus, o vazio permanece... E retorna aonde nascera para findar-se despedaçado, não-existente.


Pela teoria psicanalítica em foco, observamos que o bebê Jean Baptiste Grenouille nunca fora ‘visto’ e, conseqüentemente nunca pode olhar criativamente e ver o mundo, pois totalmente ausente a função especular materna. Ora, diz-se que o bebê não existe sozinho, somente se considerada a maternagem que o envolve. Assim, é como se ele não visse a si mesmo, sentimento esse simbolizado pela ausência de odor e pelo seu consequente medo de esquecer-se a si próprio.

Da mesma forma, Winnicott entende o trauma como uma reação do sujeito à intrusão. Invasão essa que, como se viu, não faltou àquele bebê, seja pelo fétido odor que sentira ao nascer, seja por ser tratado como vísceras a serem descartadas no esgoto, seja pelo sufocamento sofrido ao chegar ao abrigo e tantas outras inimagináveis.

Assim, completando o sentido de ‘sentir-se não-existente’ acima mencionado, temos que um bebê, enquanto estiver reagindo não há a “continuidade de ser”. Ou seja, reagindo, o bebê não está existindo.

Portanto, a sua morte, sendo devorado, parece ser a solução para a frustração de nunca ter alcançado seu objetivo de ser preenchido, embora agindo como Psique, que no escuro deleitava-se instintualmente com Eros. O que para ela não bastou, devido à sua curiosidade, Psique passou por inúmeras provações, inclusive descendo a Hades, antes de tornar-se imortal como seu par.

No grau extremo de cisão, a criança não tem qualquer razão para viver. Nos níveis menos elevados existe um certo sentimento de futilidade relativo à vida falsa, e uma busca incessante daquela outra vida que seria sentida como real, mesmo que levasse à morte[21].



Tentou-se nessas breves considerações apresentar alguns conceitos Winnicottianos aplicáveis ao filme “Perfume”, porém relevando-se a estrutura temporal do enredo acaba por se remeter também ao desenvolvimento psicossexual por Freud elaborado.

Muito sinteticamente, parece saltar aos olhos três momentos bastante distintos vivenciados pelo protagonista. O primeiro inclui três fases, sendo , o nascimento e a infância de Grenouille, o tempo de trabalho no curtume e o aprendizado com o mestre Baldini; o segundo momento é quando o protagonista passa algum tempo na caverna e, por fim, o terceiro, quando ele chega à Grasse, domina o método de extrair o aroma das flores e o aplica nas mulheres a fim de criar o perfume perfeito.

Pode-se, assim, imaginar um paralelo das três fases do primeiro momento com as fases do desenvolvimento sexual das crianças, quais sejam, a fase oral, que no caso se poderia dizer olfativa, via pela qual apreende o mundo, quando há o primado do instinto. Em seguida, o trabalho no curtume representaria a fase anal, quando se evidencia o (auto-)controle e a atividade laboral do protagonista e, a terceira, a fase fálica, quando mais salta aos olhos a questão do prazer e do desprazer e as consequências dessas descobertas advindas.

Ressalte-se também que a parte final da primeira grande fase inicia-se quando Grenouille sente pela primeira vez os bons odores de uma loja de perfumes e em seguida se depara com o aroma extasiante da vendedora de frutas (a manifestação do desejo erótico de posse, sexualmente semelhante à do adulto) e encerra-se com a saída da casa de Baldini e sua morte, o que poderia significar o parricídio (notadamente pelo aspecto da evidente superação do mestre pelo aprendiz), não sem antes Grenouille frustrar-se veementemente ao descobrir falho o ensinamento do Mestre Baldini quanto à possibilidade de se extrair o odor de todas as coisas, que nesse momento, mas só a ele restrito, poderia significar a castração.

Buscando não se alongar demasiadamente sobre essas observações, parece possível identificar as três grandes etapas do amadurecimento sexual humano, sendo a primeira a tenra infância até a dissolução do complexo de Édipo, a segunda, na caverna, corresponderia ao período de latência e a terceira à maturidade sexual, quando Grenouille efetiva sua busca por reconhecimento de si, simbolizada por sua jornada em Grasse.


Acrescendo-se ao descrito acima quanto à possibilidade de se entender o filme também a partir de conceitos freudianos, talvez caiba nesse momento uma última observação acerca do aspecto simbólico presente em toda obra analisada.

Pode-se dizer que o filme é permeado a todo tempo de muita sensualidade, seja pelo caráter preementemente olfativo, seja pelas belas mulheres e paisagens e o modo com que Grenouille manipulava seus objetos, bem como o clímax do filme quando uma multidão é invadida sensorialmente. Pode-se dizer mais, que em todo o filme se observa o caráter sensual, excetuando-se, talvez, a cena inicial de seu nascimento?

Grenouille nasceu descartado como lixo, como vísceras, nascido para em seguida perecer, mas, invadido e internamente impregnado pelos odores de um mercado de peixes, fez-se mais forte sua pulsão de vida e por ela clamou.

Talvez então, abusando do caráter simbólico do filme, simbólico esse paradoxalmente desconhecido ao protagonista, pode-se imaginar que a exceção apontada não se distancia tanto do resto do filme. Ora, comumente, e jocosamente, é utilizado comparações entre o odor de peixe com a genitália feminina. As próprias características do peixe, seus movimentos, fluidos e natural viscosidade também podem ser relacionados aos órgãos genitais numa relação sexual. Tal fato, portanto, parece coadunar-se ao simbolismo entranhado de todo o enredo da obra, afinal, como disse Santo Agostinho: inter urinas et faeces nascimur.



BIBLIOGRAFIA


Bulfinch, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia: A Idade da Fábula: História de Deuses e Heróis; tradução de David Jardim Junior. 11ª Edição. Rio de Janeiro: Ediouro. 2000.


Dias, Elsa Oliveira. “A teoria do Amadurecimento de D.W.Winnicott” – 2ª edição. São Paulo: DWW Ed., 2012.


____________.Sobre a Confiabilidade e Outros Estudos”. São Paulo: DWW Ed., 2011.


Ribeiro, Paulo de Morais M. in Perfume: A História de Um Assassino – “Cheirar Para Existir e Matar para não Estar Morto” – retirado do site: http://www.sbprp.org.br/cinema/popup_perfume.htm


Winnicott, Donald Woods. Natureza humana; tradução de Davi Litman Bogomoletz. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1990.


____________. Privação e Delinquência; tradução Álvaro Cabral – 5º edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.


____________. Os Bebês e Suas Mães, tradução Jefferson Luiz Camargo – 2º edição. São Paulo: Martins Fontes, 1999.



[1] Ressalta-se que a obra estudada trata-se apenas do filme e não do livro que o inspirou.
[2] Trecho do livro de Patrick Süskind, retirado do site: “http://pensador.uol.com.br/frase/NTMwNzcz/”
[3] Em momento algum J.B. Grenouille se alimenta durante o filme. O olfato, portanto, parece ser sua ingestão, a via pela qual busca internalizar o mundo externo.
[4] Pág. 11 – Privação...
[5] Pág. 56 – Os Bebês...
[6] Pág. 54 – Os Bebês...
[7] Pág. 137 – Natureza...
[8] Pág. 155 – Privação...
[9] Pág. 107 – Privação...
[10] Pág. 121 – Natureza...
[11] Pág. 55 – Os Bebês...
[12] Pág. 74 – Os Bebês...
[13] Pág. 104 – Privação...
[14] Pág. 199 – Privação...
[15] Págs. 125/126 – Privação...
[16] A alma dos seres é o aroma deles e Jean Baptiste Grenouille não possui odor.
[17] Ribeiro, Paulo de Morais M.
[18] Pág. 115 – Privação...
[19] Pág. 136 – Natureza...
[20] Pág. 104 – O livro de Ouro da Mitologia.
[21] Pág. 128 – Natureza...

quinta-feira, 10 de maio de 2012

FRAGMENTADO


Quando me perdi, no afã de me encontrar, tudo em torno se relativizou. O próprio crer em nada se fixava, perambulava vendado. O ânimo tinha a percepção de estar se enganando continuamente quando não afundando em profunda angústia e depressão. O vazio tomou conta.

Hoje pareço ainda fingir. Busco uma paz que renunciei, mirando o espelho de um falso querer naquela minha alma da qual saltei.

Tudo segue estranho. Fatos e datas se sucedem e me envolvem naquilo que não sou.

Nada mais volátil e superficial que essa paz que finjo ter. As coisas não se encaixam, e me dilacero lutando por aquilo que não quero.

Não há aqui lugar pra mim nesse tempo. To muito aquém do agora.

Maldigo a necessidade que me molda, insistentemente, de novo e de novo... E se fujo, me mato, me culpo.

Contorno minhas leis, com ardis da razão e conhecimento, mas me supero e me entrego a mim, aos açoites da minha culpa, agudos, cáusticos como os desejos.

E ainda sigo desencontrado. Acompanhado por devaneios e ingênuos sonhos alheios... maçantes, impertinentes, fazendo-me estrangeiro de toda essa vida que levo, dessa aparência que em mim não mais se encaixa.

Sinto-me um fragmento de algo que desconheço.

Fragmentado.

Não sei mais, porém, se consigo me calar novamente, mas também não sei se me restam forças para gritar, para me abandonar de mim e todo esse castelo de cartas que, assíduo como um inseto, eu construí.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

HERANÇA DE NARCÍSO

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Amo a projeção ideada de mim.

E quem de fora amo,

Amo somente o que a reflete.

 

Amo sua metamorfose constante,

Seu brilho fugaz, sua nômade dor.

... E deixo de amar quem não a acompanhe.

 

Não amo o que me impressiona

Mas a impressão que deixo.

E o que me fora ideal nascera de mim.

 

Não projeto no outro o que um dia amei,

Pois se um dia eu amei um (primeiro) outro

Foi somente enquanto esse outro eu fui.

 

Se se sabe impossível o desejo de si

Pouco já cala no outro o anseio

Que renasce de si para a insatisfação.

 

Por isso não há espelho que me baste

E tal falta, embora chegue a dilacerar

É o que me integra e me faz desejar.

 

E essa contraditória angústia que amo

Renova-me como um sonho a esperança

Para a ilusão de um dia me desencontrar.

 

terça-feira, 10 de abril de 2012

ARTE

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Escrevo para não enlouquecer

Então enlouqueço-me no escrever.

A Arte me cura e me permite adoecer.

Mas não é doença

Só mero sintoma do que fui

Ou solução do que serei.


terça-feira, 27 de março de 2012

MOTE: "Minha pátria é onde não estou" - Alvaro de Campos

´

...
"Sou no quando
Vivo o quanto.
Não estou aqui
Nem no pensar.
Estou ali,
Se ali o devir passar!"

INÉRCIA

 .

(ou  ‘Do Deus-Amor Aristotélico’)

A vontade de mim faz-me ser.
O que me move não há em mim.
Minha vida está num outro viver,
Noutro peito meu pulsar enfim.

Move-me sem se mover...
Animus de minha alma inanimada.
Mas em mim só haverá o morrer
Quando em si minha vida for calada.

Todo inerte mover-se vejo claro
Mas noutro estar não me ponho.
E no vício do retorno acomodado
Iludo-me em parco sonho:

‘Se essa alma fosse minha
E um presente eu lhe pudesse dar
A Liberdade eu lhe daria
Para além de mim poder voar!’.

ILUSÃO

.

SEI MUITO BEM O QUE QUERO.
SABES MUITO BEM O QUE PRECISA
MÃO ME IMPONHA TUAS RAZÕES
...SENÃO DELAS FAÇO POESIA.

segunda-feira, 19 de março de 2012

FLOR DE JABUTICABA

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Estranho, não defino e não me encontro
Nessa distância: corações tão juntos!
Se pra dizer adeus nunca estou pronto,
Ainda em mim mesmo sempre mais me afundo.

... E me perco na névoa que me abraça.
E afasta o pensar – desejar intenso.
E roga o que não quer – sonhos que mata.
E arrasta pro seu corpo – olhar sereno...

Conflito do querer que lhe instigo.
Querendo-lhe o prazer lhe dou receios.
Mas será nossa a culpa do destino?

Deixe que fluam os sonhos à deriva,
Que naufrague o receio do que somos
Pra que nesse instante saiba-se viva.

terça-feira, 13 de março de 2012

MAGIA

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Não se sabe o que é
Enquanto não se tornar o que foi.

Se inventar a magia e a tiver como ar,
Haverá de matá-la a cada amanhecer.
Ela só se perpetua na morte, no findar.
Só existe na mudança, no reinvento,
... Como um nômade sentimento.

Lágrima e gozo no mesmo sentir
Condenação de Prometeu
Serpente eternamente a se digerir...
Essa é a dor e a folia
Do prazer da magia.

Que peito não se dilacera
Na busca desse cego e iluminado mundo?

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Verdade que não existe na busca, silenciosa e corrosiva,
O desejo obscuro, eterno e insatisfeito,
A falta que, intensa e constante, permeia cada entranha,
São os únicos habitantes do existir.

A alma possui uma membrana fina, porosa e permeável. Absorve, mas estará sempre vazia. Nada será capaz de preenche-la. Com o tempo, até a melhor das satisfações - como ilusão que é - escoará e deixará de ter sentido, voltando-se, a alma, ao seu estado natural: murcha, enrugada.

ONDE?

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Incoerentemente deixei de me ser.
Distanciei-me de mim e olho para o nada.
Observo-me e desconheço.
Não vejo caminhos, não vejo pegadas.
Estanque no meio da estrada.

O que me transforma em dúvida?
Quem passou a me habitar?
A falta era tão grande que a poeira fez-se ouro?
Para onde migrou minha vida, meus planos?

Foge-me a consciência do que sou.
Apaga-se o que fui a cada passo,
E em futuros paralelos me fragmento.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

NOITE

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MEUS SONHOS SE VÃO
NOS DESVÃOS DOS MEDOS.
E CEDO SE CALAM,
ENTALAM A GARGANTA.
E SO CANTA A TRISTEZA
A CERTEZA DE MEU PEITO.
E O MALFEITO VIVIDO,
SENTIDO EM SOLIDÃO,
NÃO ME DEIXA DORMIR
A IMPEDIR NOVOS SONHOS...
...MEUS SONHOS SE VÃO.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

CANSEIRA

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Sujeira?
Eu preciso dessa sua lama.
Quero que me cuspa
Lodo-pétala que anseio
Desejos-medos que não vivo.
Saudades do futuro que não me tem
Esperança ruminando os próprios dentes
Envelhecendo entre poeiras,
Sonhos decantados
Fuligens sobre elmo.
Ossos rangendo o tempo
O desmoronar da loucura ufana.
O “desejado” pelo “cuidar”,
E a dor que me trás, prescindível troca.
Afoga-me, sufoca-me, rasga-me...
Mas ainda luto
Ainda que seja
- minha última força
O seu último suspiro