sábado, 15 de agosto de 2009

MEU FALSO AMOR

Temos, Amor, de ir embora
Embora seja cedo...
E sede ainda tenho de te amar.

Tens, Amor, trancas na janela
Quisera te soltar...
Mas amar requer que esqueçamos medos.

Tenho, Amor, minha porta aberta
Me inverna tua ausência...
Ciência que não mais devo voltar.

Teu caminho já está traçado
Cansado de implorar
Por um novo começo
Que nunca está perto de chegar.

Vou-me embora agora
Não venhas me chamar
Pro teu fim que trágico escanteia
O maior amor que te puderam dar.

Temos amor em ir embora
Embora seja cedo
E sede ainda tenho de amar

Minha vida chama
E em meu peito não pode parar
Quem parado está chorando
Rezando pra não ter onde voar.

Desculpe, Amor, minha impaciência,
Essência de quem ama...
De quem procura por olhos em chamas
E almas prestes a se entregar.

Temos de ir embora
Agora, que ainda é cedo
Pois de sede não irás me matar.

Teus olhos, teu corpo se adianta
Pra vida que pensei te dar
Mas tua alma estanca
Na liberdade de teu caminho traçar.

Deixas-me acordado, a meu futuro olhar
Enquanto dormente segues
e cega jamais verás
O mundo que iria te dar.

Estou indo embora
Agora, que ainda é cedo
Pra essa sede em outra alma saciar.

Minhas luas já me fazem envelhecer
Mas meus sonhos renascem a cada dia.
Pena negar-te a te conhecer
Fazendo-me despedir com essa última poesia.


Mitre Mallamparte

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

...AO OLHAR DE UM PANENTEÍSTA

Meu encontro num corpo feminino
De inebriante insinuação abstrata,
Pura forma de essência pouco casta,
Dá a um ser marcado olhos de menino.

A ninfa do Saber que me arrebata
À dúvida, prende-me em laço fino
À insegurança e na surpresa oscilo:
Físico e sublime que seu nome ata.

Extasiado em descompassado enredo,
Graça inocente do aflorado instinto,
Observo o amor, as sombras reprimindo.

Nessa incoerência, sou insano sem medo:
Lanço em sua vida os desejos que sinto
E em sua carne minh´alma se despindo.

TRANSMUTAÇÃO DE ALMA

Outro eu em você
Que me força querer
De mim força pra ser
Em você o mesmo eu

Seu querer não me quer
Bem pra si como sou
Mas não será de mim
Pois sou outro que vou

A solidão se divide
Da vida só(,) em dois
Se somos nós que nos temos
Dizemos então solidões...

Mas não somos pra nós
Nem de si nem de mim
O que fui pra você
E de você o que vim

Não me é o que sei
Se é que sei sobre você
O desejo inesperado
Da surpresa de se ter

Como ceder de mim, se não sou
Para si o que pensa,
O que tenho pra você
Mas não espera que seja

Se a alma, então,
Se move por si
Do corpo esperamos fusão

Se nos temos somente corpo
Que a alma se divida então
Em sentimento ora vivo, ora morto.

EU CHORO VOCÊ

Eu choro você.
Choro o que deixo de lhe ensinar
Choro o que nunca vou lhe aprender.
Choro seu corpo distante
O seu perfume que de minha pele se esvai.
Sangro sua alma enjaulada
E as chaves que devo esconder,
Em cada gota, em cada lágrima...
Eu choro você.
Devagar e dolorosamente
Você se apaga de mim e me vertem
As lágrimas do amor que não mais cabe em mim.
Você é a rara lágrima que choro sem amor
Quando eu choro você.

AMOR, OBJETO CULTURAL

Quê importa o fim se não almejo chegar?
Razão não há nas curvas que te percorro.
Se nesse rastro, de prazer eu morro
O Fim nele mesmo se diz morar.

Não preciso ser, se me basta estar
Noites após dias em teu pensamento
E na umidade do teu movimento,
Estanque porto que irás atracar.

Da tua vida só me legue o desejo,
A única verdade da tua alma,
O que restou puro em meio a teus medos.

Não busco a tua história, nem tua dor
Somente a verdade, essa nossa fome
Do inato sexo que destrona amor!

Cronos

Todos nós temos nossos anjos e demônios. E a essência humana é a ambivalência emocional. Reúno, pois, em mim, minha única desgraça que é também minha salvação: o Tempo. Cronos não é só meu deus, a quem temo e honro. É mais. É meu castigo, meu crime, minha pena e absolvição.
Ele me trai como um amante. Me instiga como o sexo que irá acontecer, para no fim me abençoar com a maior cura: o Esquecimento.

Não sei se sou eu quem o desafia com minha vontade de viver, com meu desejo sempre infantil de me satisfazer, me lambuzar de prazer e, então, me condena a um desafio ainda maior: matar-me a cada esquina. Pareço percorrer o traçado de Shiva que extermina para reconstruir em seguida, dando vida ao mundo que acabou de aniquilar. Dizem que meu deus devora os próprios filhos... Assim fosse... Pareço mais Prometeu que, no raro instante de não sofrimento, ainda guarda todas as cicatrizes do seu destino.

Lanças-me num tempo que não pertenço. Com que prazer me trazes a bola quando já levo bengala, ou a sabedoria quando só quero paixões?
Que triste prazer sentes ao me ver definhar ante a Fonte que não posso tocar, não posso beber, me saciar?

Por que me trazes a teu Templo se tua sacerdotisa é mera fumaça do que possuo? Mas uma fumaça que não mais sinto...

Quê me adianta se teus campos floridos só se revelam agora, após ter sulcado o mais árido deserto?
Não me oferta tua casa se de minhas mãos erigi meu castelo... não o perturbe, não o abale, pois já o fazes em ruínas por seu fugaz abrigo.

Para me dilacerar, usa de meu maior inimigo, o único que pode me ofertar desgraças e prazeres com a mesma intensidade. Transforma-me num duplo de sentidos e razões. E nessa dicotomia, me confunde e definho deixando perecer a beleza de cada caminho, sobrando-me somente cinzas.
“... Cinzas do tempo que persigo sem saber...”


Mitre Mallamparte