quinta-feira, 10 de maio de 2012

FRAGMENTADO


Quando me perdi, no afã de me encontrar, tudo em torno se relativizou. O próprio crer em nada se fixava, perambulava vendado. O ânimo tinha a percepção de estar se enganando continuamente quando não afundando em profunda angústia e depressão. O vazio tomou conta.

Hoje pareço ainda fingir. Busco uma paz que renunciei, mirando o espelho de um falso querer naquela minha alma da qual saltei.

Tudo segue estranho. Fatos e datas se sucedem e me envolvem naquilo que não sou.

Nada mais volátil e superficial que essa paz que finjo ter. As coisas não se encaixam, e me dilacero lutando por aquilo que não quero.

Não há aqui lugar pra mim nesse tempo. To muito aquém do agora.

Maldigo a necessidade que me molda, insistentemente, de novo e de novo... E se fujo, me mato, me culpo.

Contorno minhas leis, com ardis da razão e conhecimento, mas me supero e me entrego a mim, aos açoites da minha culpa, agudos, cáusticos como os desejos.

E ainda sigo desencontrado. Acompanhado por devaneios e ingênuos sonhos alheios... maçantes, impertinentes, fazendo-me estrangeiro de toda essa vida que levo, dessa aparência que em mim não mais se encaixa.

Sinto-me um fragmento de algo que desconheço.

Fragmentado.

Não sei mais, porém, se consigo me calar novamente, mas também não sei se me restam forças para gritar, para me abandonar de mim e todo esse castelo de cartas que, assíduo como um inseto, eu construí.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

HERANÇA DE NARCÍSO

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Amo a projeção ideada de mim.

E quem de fora amo,

Amo somente o que a reflete.

 

Amo sua metamorfose constante,

Seu brilho fugaz, sua nômade dor.

... E deixo de amar quem não a acompanhe.

 

Não amo o que me impressiona

Mas a impressão que deixo.

E o que me fora ideal nascera de mim.

 

Não projeto no outro o que um dia amei,

Pois se um dia eu amei um (primeiro) outro

Foi somente enquanto esse outro eu fui.

 

Se se sabe impossível o desejo de si

Pouco já cala no outro o anseio

Que renasce de si para a insatisfação.

 

Por isso não há espelho que me baste

E tal falta, embora chegue a dilacerar

É o que me integra e me faz desejar.

 

E essa contraditória angústia que amo

Renova-me como um sonho a esperança

Para a ilusão de um dia me desencontrar.

 

terça-feira, 10 de abril de 2012

ARTE

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Escrevo para não enlouquecer

Então enlouqueço-me no escrever.

A Arte me cura e me permite adoecer.

Mas não é doença

Só mero sintoma do que fui

Ou solução do que serei.


terça-feira, 27 de março de 2012

MOTE: "Minha pátria é onde não estou" - Alvaro de Campos

´

...
"Sou no quando
Vivo o quanto.
Não estou aqui
Nem no pensar.
Estou ali,
Se ali o devir passar!"

INÉRCIA

 .

(ou  ‘Do Deus-Amor Aristotélico’)

A vontade de mim faz-me ser.
O que me move não há em mim.
Minha vida está num outro viver,
Noutro peito meu pulsar enfim.

Move-me sem se mover...
Animus de minha alma inanimada.
Mas em mim só haverá o morrer
Quando em si minha vida for calada.

Todo inerte mover-se vejo claro
Mas noutro estar não me ponho.
E no vício do retorno acomodado
Iludo-me em parco sonho:

‘Se essa alma fosse minha
E um presente eu lhe pudesse dar
A Liberdade eu lhe daria
Para além de mim poder voar!’.

ILUSÃO

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SEI MUITO BEM O QUE QUERO.
SABES MUITO BEM O QUE PRECISA
MÃO ME IMPONHA TUAS RAZÕES
...SENÃO DELAS FAÇO POESIA.

segunda-feira, 19 de março de 2012

FLOR DE JABUTICABA

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Estranho, não defino e não me encontro
Nessa distância: corações tão juntos!
Se pra dizer adeus nunca estou pronto,
Ainda em mim mesmo sempre mais me afundo.

... E me perco na névoa que me abraça.
E afasta o pensar – desejar intenso.
E roga o que não quer – sonhos que mata.
E arrasta pro seu corpo – olhar sereno...

Conflito do querer que lhe instigo.
Querendo-lhe o prazer lhe dou receios.
Mas será nossa a culpa do destino?

Deixe que fluam os sonhos à deriva,
Que naufrague o receio do que somos
Pra que nesse instante saiba-se viva.

terça-feira, 13 de março de 2012

MAGIA

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Não se sabe o que é
Enquanto não se tornar o que foi.

Se inventar a magia e a tiver como ar,
Haverá de matá-la a cada amanhecer.
Ela só se perpetua na morte, no findar.
Só existe na mudança, no reinvento,
... Como um nômade sentimento.

Lágrima e gozo no mesmo sentir
Condenação de Prometeu
Serpente eternamente a se digerir...
Essa é a dor e a folia
Do prazer da magia.

Que peito não se dilacera
Na busca desse cego e iluminado mundo?

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Verdade que não existe na busca, silenciosa e corrosiva,
O desejo obscuro, eterno e insatisfeito,
A falta que, intensa e constante, permeia cada entranha,
São os únicos habitantes do existir.

A alma possui uma membrana fina, porosa e permeável. Absorve, mas estará sempre vazia. Nada será capaz de preenche-la. Com o tempo, até a melhor das satisfações - como ilusão que é - escoará e deixará de ter sentido, voltando-se, a alma, ao seu estado natural: murcha, enrugada.

ONDE?

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Incoerentemente deixei de me ser.
Distanciei-me de mim e olho para o nada.
Observo-me e desconheço.
Não vejo caminhos, não vejo pegadas.
Estanque no meio da estrada.

O que me transforma em dúvida?
Quem passou a me habitar?
A falta era tão grande que a poeira fez-se ouro?
Para onde migrou minha vida, meus planos?

Foge-me a consciência do que sou.
Apaga-se o que fui a cada passo,
E em futuros paralelos me fragmento.