Estava em minha sala quando ouvi na recepção uma voz doce que me fez suspender a respiração. A caneta erguida da folha começou a tatear o papel lentamente enquanto abaixava a cabeça, não ouvia mais nenhuma voz, o ambiente que ainda trazia o frio da manhã começou lentamente a tornar-se acolhedor. Aquela sóbria sala de escritório amenizava a solidão e se isolava em algum espaço deserto.
De repente, aquilo que me acolhia voltou a me incomodar, e numa angústia conhecida meu corpo ameaçou encolher: estava só. A imagem de meu quarto de infância formou-se em minha mente junto com o ruído incômodo de visitas na sala de estar.
Olhei para o corredor que findava a recepção e vi uma imagem sem rosto, enevoada do calor feminino, vindo em minha direção. A parte mais nítida era os quadris, e isso não me incomodava. De tamanho desproporcional, só possível em sonho, trazia em uma das mãos algo cilíndrico enrolado num pano antigo.
A imagem se desfez quando ouvi despedidas na recepção, minha janela mirava a saída e entre as persianas observei as costas e os cabelos louros de duas altas mulheres que caminhavam indiferentes, agora já na rua.
Nesse dia voltei mais cedo pra casa, minha mulher estava viajando devido a um congresso. Nada na tevê, palavras cruzadas na cama me fariam dormir. Naqueles instantes últimos antes do sono, clareou uma poesia sobre a casa paterna.
Poesia? Quando adolescente escrevi um desabafo numa agenda, mas... perdi a agenda e ganhei amigos. Não era exatamente popular, mas todos na escola sabiam meu nome, inclusive professores, e eu não sabia de todos. Na rua eu era chamado pra resolver qualquer problema entre os garotos, e resolvia; se dois estavam querendo brigar eu não deixava, se insistissem, eu batia nos dois.
Acreditei que tendo muitos amigos, ou algo parecido, ficamos muito ocupados e preocupados. Talvez por isso eu era conhecido também pela minha agressividade e não tinha tempo de gostar de nenhuma menina, mas gostava de ser gostado.
O primeiro mal-estar foi quando tinha dezessete anos. Voltando da escola, ainda concentrado nas aulas de geometria analítica e de ondulatória, às quais me dedicava apesar de ter claro minha escolha para o curso de Direito, quando deixei cair “O Príncipe” anotado por Napoleão Bonaparte e por Christina da Suécia que havia emprestado da biblioteca. Quando o livro se abriu em meio à rua, uma folha dobrada voou para longe, recolhi o livro e continuei andando deixando aquele papel pra trás, porém, ainda nos primeiros passos, o vento fez com que aquele pedaço de página já empardecido viesse parar próximo aos meus pés, apanhei e o guardei no livro novamente.
Já em minha cama, coloquei o livro sobre o peito e rezei o habitual cacoete: “abre-se um livro, abre-se uma vida”. Como o costume que tenho ainda hoje, antes de ler um livro pela primeira vez, passo os olhos pelas páginas de trás pra frente. Fazendo isso, aquela folha caiu novamente do livro, quase em meu rosto.
Parecia um trecho de uma carta piegas, porém o que me intrigou foi a letra, era minha.
(...)
Absurdo! Como poderia pensar que era minha letra, há tantas letras parecidas. Isso me confortou no momento, porém quando lia esse trecho, parecia sentir exatamente as emoções que tentavam exprimir. Será que só de ler poderia imaginar algo que não vivi. Aquele sentimento começou a me perseguir desde então – era o mal estar.
Quando acordei, fiquei cerca de meia hora sentado na cama procurando no que pensar. Aquilo estava fugindo do meu controle – casa paterna, poesia – estava confuso. Levantei-me citando Sheakespeare: “há algo de podre no reino da Dinamarca”.
Os livros que apareciam em minha estante desde o tempo da faculdade, tais como Nietzsche, Spinoza e Shopenhauer, todos estranhos e intocáveis, por um instante pareceram familiar e a dúvida de ser esse mundo mesmo real soou-me plausível.
Como advogado, estava familiarizado com algumas expressões latinas, porém a que me veio à mente como uma marretada não fazia a menor idéia de sua origem: quod quid erat esse.
Toda a lógica das argumentações diárias com as quais convivo perderam força, e ficou clara a contradição interna. Minhas pernas bambearam e não me preocupei em ligar para o escritório avisando que não ia trabalhar.
Comecei a revirar meus arquivos atrás de um trabalho que um dia encontrei em minha escrivaninha cujo título trazia algo como ‘Ambivalência Emocional’. Não encontrava, teria jogado fora mais uma das coisas que surgiam inexplicavelmente?
Confusão, livros estranhos tornando-se familiares, a imagem do quente quadril vindo em minha direção toda vez que fechava os olhos, frases sem sentidos saltando em minha cabeça: quero a morte da amada testemunha. A vida que desforra pede. Sinto o baque do chão.
Com um sorriso materno, aquela imagem desvela o antigo pano e estende uma mamadeira, uma lágrima escorre por meu rosto. Uma bicicleta cujo verde da pintura está descascado trás uma criança descalça. Um Flamboyam conta as dores de um adolescente. Um córrego arrasta a areia de uma saudade não visitada. O vento esvoaça os longos cabelos masculinos enquanto um grupo de amigos discute filosofia embaixo de árvores.
Quem me criou a vergonha do público? Quem me fez abaixar a cabeça aos olhos sedutores? Quem me fez verter versos com lágrimas? Quem me fez esquecer tudo isso?
Vejo que não deixei pra trás, mas trago escuro outro sangue que minhas veias aos poucos se mancham. Procuro poesias que possam me explicar, mas vejo um lapso, um fosso entre a criança e a dor que agora sinto. Eis o contraditório!
Pelo medo de confessar já confesso o medo de me reconhecer. Talvez um dia eu me confunda e acabe ajuizando uma poesia.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário