REPISANDO...
Todos nós temos nossos anjos e demônios. E a essência humana é a ambivalência emocional. Reúno, pois, em mim, minha única desgraça que é também minha salvação: o Tempo. Cronos não é só meu deus, a quem temo e honro. É mais. É meu castigo, meu crime, minha pena e absolvição.
Ele me trai como um amante. Me instiga como o sexo que irá acontecer, para no fim me abençoar com a maior cura: o Esquecimento.
Não sei se sou eu quem o desafia com minha vontade de viver, com meu desejo sempre infantil de me satisfazer, me lambuzar de prazer e, então, me condena a um desafio ainda maior: matar-me a cada esquina. Pareço percorrer o traçado de Shiva que extermina para reconstruir em seguida, dando vida ao mundo que acabou de aniquilar. Dizem que meu deus devora os próprios filhos... Assim fosse... Pareço mais Prometeu que, no raro instante de não sofrimento, ainda guarda todas as cicatrizes do seu destino.
Lanças-me num tempo que não pertenço. Com que prazer me trazes a bola quando já levo bengala, ou a sabedoria quando só quero paixões?
Que triste prazer sentes ao me ver definhar ante a Fonte que não posso tocar, não posso beber, me saciar?
Por que me trazes a teu Templo se tua sacerdotisa é mera fumaça do que possuo? Mas uma fumaça que não mais sinto...
Quê me adianta se teus campos floridos só se revelam agora, após ter sulcado o mais árido deserto?
Não me oferta tua casa se de minhas mãos erigi meu castelo... não o perturbe, não o abale, pois já o fazes em ruínas por seu fugaz abrigo.
Para me dilacerar, usa de meu maior inimigo, o único que pode me ofertar desgraças e prazeres com a mesma intensidade. Transforma-me num duplo de sentidos e razões. E nessa dicotomia, me confunde e definho deixando perecer a beleza de cada caminho, sobrando-me somente cinzas.
“... Cinzas do tempo que persigo sem saber...”
terça-feira, 25 de maio de 2010
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