terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O Sol e a Estrela

Era uma vez um Sol conhecido pelo seu imenso poder de a todos iluminar. Ele aquecia e contagiava a todos que em sua luz se banhavam.Todos o adoravam, brincavam sob seu calor, se irradiavam de alegria desde quando chegava até o último segundo antes de partir.

Ele mesmo era muito feliz e dessa felicidade emanava todo o seu contagiante bem-estar. Acontece, porém, que embora todos se alegravam com sua presença, ninguém dizia pra ele o quão especial ele realmente era. Assim, o Sol não se sabia tão único, não sabia quem realmente ele era...

E por isso, embora ele fosse muito feliz, às vezes ele sentia um certo vazio dentro de si, como se todo aquele calor que emanava não fosse suficiente para aquecer a si próprio.

Houve um dia, justamente quando sentia forte esse vazio, quando já estava quase partindo, no momento mais solitário de seu luminoso dia, ele avistou ao longe uma estrela que queria começar a brilhar.

A Estrela, porém, há muito tempo já admirava aquele Sol e tanto que, timidamente, aparecia todo final de tarde e contemplava em silêncio aquele sol indo embora sozinho todos os dias.

A Estrela se perguntava qual o segredo pra tanto esplendor, como ele conseguia ter um brilho tão intenso e contagiante que a inspirava todos os dias. A felicidade do Sol, o seu brilho foi tanto que a Estrela acabou se apaixonando por ele.

A estrela era tímida, contemplativa, gostava de admirar, ao contrário do Sol que era sempre admirado, ela raramente era observada por alguém. Não inspirava ninguém, não contagiava ninguém e por isso, ao longo dos tempos aprendeu a conviver com o silêncio e com seu brilho quase imperceptível.

Mas naquele fim de tarde sentira algo que jamais esqueceria. O Astro-Rei, o admirado Sol tinha olhado-a nos olhos, tinha reparado no seu pequeno brilho... Mesmo que por poucos instantes, foi suficiente para que seu brilho fosse diferente aquela noite... e todas as noites a partir daquela!

Nessa mesma tarde, o Sol despedindo-se para seu refúgio, ao ver aquela pequena Estrela, sentiu-se instigado em conhecê-la, em entender aquela misteriosa timidez e foi dormir sonhando com ela, sentindo-se mais aquecido aquela noite.

Na manhã seguinte o Sol levantou mais cedo e correu para ver se encontrava aquela Estrela e, ao olhar em volta, viu que de todas as milhares de estrelas, uma brilhava diferente, era ela! Mas pouco tempo tiveram, pouco tempo seus olhos se cruzaram e a Estrela precisou ir embora para mais um dia...apagada. Mas dessa vez ela esboçou um sorriso quando partia.

Quando se encontraram novamente já estavam completamente apaixonados um pelo outro. Já sonhavam com o momento que se encontrariam novamente, que se olhariam nos olhos e que trocariam aquilo que lhes faltava – a Estrela acreditava que o Sol, pelo imenso brilho que emanava, era a Alma que lhe faltava, O Sol acreditava que a Estrela, pelo mundo diferente que lhe apresentava, era a verdadeira Vida dele.

A Estrela tentava aprender do Sol como se permitir brilhar mais intensamente e ensinava ao Sol como também contemplar e admirar, falava pra ele o quanto ele era especial, o quanto ele era essencial para a vida de todos que estavam a sua volta e do quanto ele tinha que saber o seu valor.

O Sol brilhava ainda mais, pois sentia o seu vazio indo embora. Admirava da Estrela sua poesia e romantismo e queria trazê-la pra si, para consigo brilhar e a todos contagiar com aquilo que agora ele admirava.

Ambos queriam estar sempre juntos, mas eles começaram a observar que algo os impedi de se encontrarem.

Sempre que o Sol chegava, a Estrela logo ia embora, apagava-se na sua realidade... Sempre que a Estrela podia estar presente, o Sol já triste, recolhia-se nostálgico em seu ocaso.

Num primeiro momento, quando o encontro entre eles apagavam os problemas que os cercavam, todos os dias contemplavam um Sol irradiante, luminoso, sem ser escaldante, era sereno, feliz! As noites eram lindas, parecia que todas as estrelas se contagiavam daquela que mais brilhava e inspirava os apaixonados... qualquer um que olhasse para o céu naquelas noites, detinha os olhos naquela rara beleza.

Mas, quando perceberam que seus encontros não duravam mais que poucos segundos no céu, quando desejaram terem sempre o outro próximo ao peito, tanto os dias quanto as noites tornaram-se tristes, estavam sempre veladas pelas nuvens que choravam.

O Sol e a Estrela estavam tristes, o brilho de outrora não mais se reconhecia neles. Eles sabiam o que queriam, mas não sabiam o que fazer.

Foi então que o Sol resolveu consultar as árvores que, por serem seres antigos, assim como os pensamentos, ele acreditou que podiam esclarecer e solucionar o problema dessa difícil união.

As árvores porém, que estava adorando as chuvas, explicaram ao Sol que justamente por ele ser Sol e ela Estrela, sempre que ele surgisse no céu, a Estrela não poderia mais ser vista. “A Estrela”, explicaram as árvores, “nunca poderá conviver com você, ela só pode ser vista a noite, e você de dia. É a natureza de vocês. É a sua claridade que a apaga”.

O Sol, então, ficou ainda mais triste, pois ele, além de ver impossível aquele amor, sentia-se culpado pelo brilho da estrela estar se apagando e começou a acreditar que ela deveria viver sem ele, somente durante a noite.

Assim, resolveu chegar todos os dias o mais tarde possível e ir embora o mais cedo que pudesse. Pois desse modo, mesmo distante de seu amor, acreditava que a estrela poderia brilhar por mais tempo.

Mas na verdade, com o seu pouco tempo no céu, ele acabou provocando um rigoroso inverno e fez com que de fato a Estrela ficasse mais tempo no céu, só que por todo o tempo que ali estava, o seu brilho era triste e muito ela sofria pela ausência do seu amor Sol. Ela andava triste pois além de ter perdido o seu grande amor, com o inverno que se abateu sobre todos, ninguém passeava naquelas noites geladas... e ela estava mais apagada do que nunca.

Numa dessas noites frias, quando a Estrela já não via o Sol por muito tempo, passaram por ela alguns pássaros migratórios – que voavam acima das nuvens. Ao verem a tristeza daquela opaca Estrela, perguntaram a ela o motivo de tanto desolamento.

A Estrela contou a sua história e de toda a impossibilidade de se encontrarem e permanecerem juntos, disse que lhe restava tão somente esquecê-lo como ele já devia tê-la esquecido.

Quando acabou de contar, imaginando que seria consolada pelos acolhedores pássaros, pra sua surpresa viu todos eles gargalhando. Surpresa, a Estrela pediu uma explicação, foi quando o mais jovem deles falou:

“Será, minha cara Estrela, que vocês não percebem o quanto estão sendo ingênuos? Vocês só não estavam conseguindo permanecer juntos porque estavam se vendo com olhos alheios. Vocês não estavam se enxergando como realmente são pois não estava usando os próprios olhos, o próprio coração...

“Quero lhe dizer, minha triste Estrela, que não há qualquer motivo para esse desencontro! Vocês só são diferentes aos nossos olhos. Aqui na Terra, para nós, você sempre será Estrela e ele Sol. Mas entre vocês, ele e você são, ao mesmo tempo, tanto Estrelas quanto Sóis!

“Vocês têm a mesma natureza! E tanto isso é verdade que para os planetas que estão à sua volta, você é o Sol e ele a Estrela. Vocês só não se encontram se continuarem a se verem com os nossos olhos terrenos, os quais não enxergam através das nuvens, do espaço e do mundo que seus corações moram.

“Não só você é a Vida dele e ele a sua Alma. Mas vocês são Vida e Alma um do outro!

“Vocês, juntos, brilham mais! Nenhum dos dois ofusca o outro, não há motivo de culpa, não há porque desistir de um amor tão lindo, não há porque ser triste – O verdadeiro amor só é impossível aos olhos míopes. O amor verdadeiro é sempre muito simples!”

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